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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Segredos da Cruz de Lucio


Da série "Poesias do Cotidiano"

Toda cidade tem seus segredos, ou um certo tipo de charme que se revela apenas para os muito  íntimos.

Ano passado publiquei aqui no blog um post sobre os painéis de poesia da Biblioteca Demonstrativa do INL, na 504/505 Sul. 
Muita gente não conhecia.
Apesar de estarem lá há anos, à vista de todos, as pessoas passam sem ver, de olho no relógio, no sinal de trânsito ou nos malabaristas que se exibem na esquina.

Do outro lado do prédio também existem painéis.  Estão na contra-mão do tráfego, impossíveis de serem lidos por quem passa de carro.  Privilégio de pedestres atentos e - agora - dos freqüentadores do Seguindo Adiante.

(1)

(2)



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Para ajudar na leitura:

(1) - 
Da alma do velho pássaro falecido ouvi teu canto rouco, manso. 
Sol ardente / dor incendiante /  resisti. 
Num hai-kai de três asas / sem som de palavras / bem-te-vi.

Minha filha, mais sábio que viver um romance é lê-lo antes de deitar.
[n.e. Sábio conselho!]


(2) - 
A menina distante
As cigarras quentes de poeira dissolvem-se em estalos.
- Volto de olho firme ao verde para a derradeira manga.

Miragem
A luz escapa de escassas janelas
A super-quadra arfa sob estrelas diminutas
A madrugada desmorona
E a perfeição existe.


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Joana Doe

Eu não sabia o nome dela, até agora há pouco.

É uma senhora de cabelos brancos, porte elegante, usa saias longas e está sempre muito bem composta.
Circula todos os dias pelas redondezas da minha quadra. Costuma sentar-se à sombra para ler e escrever, e desperta minha curiosidade.
Já tive vontade de pará-la para conversar. Falta coragem. Fico mesmo no sorriso, no olhar intrigado e no breve aceno com a cabeça.

Beatriz Ramos, que não conheço, escolheu Joana como tema de um trabalho acadêmico e fez um vídeo: Joana, nomes e títulos.
Valeu, Beatriz. Mas o mistério continua.



Joana, nomes e títulos from Beatriz Ramos on Vimeo.



Atualização em 07/ago/2012:

Outras notícias e informações sobre Joana Barbosa estão no blog do Jailson Dantas: aqui e aqui .

 

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Brasilia marcha contra a corrupção


A convocação foi feita pela Internet, pelas redes sociais, pelo boca-a-boca  e mais uma vez passou ao largo da mídia tradicional.

Até aí, nada de novo. Movimentos populares demoram a adquirir visibilidade. Só aparecem no Jornal Nacional depois de transposto o "ponto sem volta", depois da maioridade. 

Não sei quantas pessoas estavam por lá, mas a  marcha que movimentou Brasilia hoje de manhã me lembrou o Pacotão nos seus melhores tempos.   Só que sem cerveja.
Menos desafiador, mas nem por isso menos contundente. Talvez mais raivoso do que alegre - e com razão.

Imagens valem mais do que palavras.























segunda-feira, 27 de junho de 2011

Poesias do cotidiano

Os painéis estão na fachada lateral da Biblioteca Demonstrativa do INL, na 504/505 sul.
Todos os dias passo por lá, paro no sinal fechado e leio. Cada vez gosto mais.

Há muito tempo estou me prometendo trazê-los para o blog. E o dia é hoje, porque estou particularmente sensível e porque passei duas semanas sem publicar nada.

Todos merecemos um presente de vez em quando.








domingo, 19 de dezembro de 2010

Pato preto mangalô três vezes


Não sou uma pessoa muito exigente com restaurantes. Nem reclamona. Ao contrário, faço o estilo resignada.

No dia-a-dia prefiro comer em casa. Comida singela, de qualidade controlada, feita na hora, especialmente para mim, no capricho. Com gosto de panela e de intimidade. Restaurantes servem para as emergências e para o social, tendo a comida como pretexto ou pano de fundo. Acredito piamente que comida boa come-se em casa.

No entanto, em época de festas e por causa das férias da minha empregada, tenho ido a restaurantes com mais freqüência do que o costume. Até aí tudo bem. A questão é que as conjunções astrais têm indicado que a maré não está prá peixe, nem para medalhões de filé.

Sábado passado fui ao Ilê, na 209 sul. Fonte de inspiração para o post “Dez dicas para restaurantes, no interesse do consumidor”.  (abaixo)

Terça-feira fui almoçar com amigos no Le Jardin do clube de golfe. Éramos cinco à mesa. Depois de mais de uma hora de espera com o restaurante quase vazio, trouxeram quatro refeições. Esqueceram de mim. Tudo bem, eu estava com fome mas estava também de bom humor. E ainda tinha algum esmalte nas unhas para descascar. Quando o bife finalmente chegou estava bem feito, no ponto certo.

Ontem fui à Confraria do Camarão no Terraço Shopping. A comida não demorou, muito pelo contrário. Veio rapidinho. Tão rápido que não deu tempo de cozinhar. O camarão estava cru. Mas tudo bem. O que é camarão cru para quem gosta de peixe cru?

Hoje fui ao Bier Fass do Pontão. Quatro pratos pedidos, todos chegaram à mesa já frios, depois de hora e tanto de espera. Teriam sido esquecidos em cima de algum balcão? Talvez. Dos quatro pratos, dois foram devolvidos à cozinha por absoluta incompatibilidade com o menu encomendado. Mas tudo bem, os três chopes que tomei acabaram embebedando a minha fome.

Esta semana ainda estive no Marieta, no Quitinete e no Your`s. Todos meia-boca. Abaixo das expectativas provocadas pelos $$$ dos cardápios.

Mas tudo bem. Minha empregada voltou das férias. Acho que vou pedir a ela para preparar um pato preto no sal grosso com molho de romã e trevo de quatro folhas. Arre!

domingo, 12 de dezembro de 2010

Dez dicas para restaurantes, no interesse do consumidor

Post dedicado ao Restaurante Ilê, em Brasília, na SCLS 209




1 - Para o camarão poder ser servido dentro do abacaxi, é necessário tirar uma boa quantidade de abacaxi da casca antes de botar o camarão, ou não vai caber.

2 - O espaço disponível dentro de um coco verde pode ser utilizado para servir um prato individual de camarão. O detalhe é que o interior do coco deve ser totalmente preenchido pelo preparado de camarão, ou o freguês vai sair do restaurante com fome. Algumas pessoas podem não saber, mas o coco só é grande por fora.

3 - Um filé de robalo tem aparência (e gosto) bem diferente do filé de linguado ou de merluza. Tentar substituir um pelo outro, sem o freguês perceber, é empreendimento de alto risco.

4 - Talheres, copos, toalhas americanas, guardanapos, galheteiros e outros utensílios utilizados nas refeições costumam ser levados à mesa antes de a comida chegar. É de bom tom, para não esfriar.

5 - Comida baiana pede o tempero de uma boa pimenta curtida no azeite ou na cachaça. Pedidos da clientela nesse sentido não são de se estranhar e devem ser acatados prontamente. De preferência, antes que a refeição seja inteiramente consumida.

6 - Cervejas envasadas em garrafinhas individuais de 300 a 350 ml não se chamam “long-nete”.

7 - O trabalho dos garçons pode ser bastante facilitado com o uso de bandejas. Não custam caro e não quebram.

8 - O creme de mamão com licor de cassis tem duas características importantíssimas: consistência cremosa e licor de cassis. Não se confunde com vitamina de mamão.

9 - Notas fiscais podem ser genéricas, mas nem tanto. Se três pessoas almoçam e pedem a nota, esta deve especificar que o valor cobrado (R$ 150,00) se refere a três refeições, e não a apenas uma.

10 - Os preços dos pratos promocionais vendidos em sites de compras coletivas são, obviamente, menores do que os preços de cardápio. Apesar disso, espera-se que a qualidade e a quantidade sejam idênticas. Assim, pega mal quando o garçom pergunta ao freguês, na hora do pedido, como será o pagamento de um determinado item, só porque existe uma promoção rolando em paralelo.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Falando sério

Do Blog do Noblat
Artigo do jornalista Luiz Cláudio Cunha


Roriz, o macaco, a fraude e a piada de palhaço

Sebastião tinha 1m52 de altura, 70kg de peso e 34 anos quando morreu de diabetes, na véspera do Natal de 1996.

Oito anos antes quase conquistara a prefeitura do Rio de Janeiro, a segunda maior capital brasileira, arrebatando mais de 400 mil votos do esclarecido eleitorado carioca. Foi o terceiro mais votado entre 12 candidatos.

Se tivesse vencido, não seria empossado. A família Hominidae, da qual Sebastião fazia parte, não tinha nenhuma tradição política. Ele fazia parte de uma espécie, os pan troglodytes, popularmente conhecida como chimpanzé.

Carinhosamente aclamado pelas crianças como ‘Macaco Tião’ no Zoológico do Rio, ele foi a invenção política mais divertida do Casseta & Planeta, antigo programa humorístico da Rede Globo. Sebastião ganhou a eternidade no livro Guinness de recordes como o chimpanzé mais votado do mundo.

O ‘Macaco Tião’ é o deboche escancarado na política brasileira, que apela para o bizarro quando leva o eleitor ao voto de protesto fantasiado pela ironia, pelo bom humor e pela graça.

Isso já acontecera no final dos anos 50, nas eleições municipais de São Paulo, quando alguém se impressionou com uma praga hoje felizmente extirpada do território brasileiro: o baixo nível dos 450 candidatos que disputavam então uma vaga na Câmara Municipal.

Antecipando em três décadas o ‘Macaco Tião’ carioca, lançou-se em São Paulo a candidatura a vereador do rinoceronte ‘Cacareco’, do Zoo da capital paulista, numa época em que cada eleitor escrevia o nome de seu candidato numa cédula de papel. Cem mil paulistanos tiveram a pachorra de escrever no seu voto o nome do mamífero chifrudo e de casca mais grossa que a maioria da fauna política nacional. ‘Cacareco’ foi o nome mais sufragado da eleição de 1959, superando sozinho os 95 mil votos do partido mais consagrado nas urnas.

‘Tião’ e ‘Cacareco’ representam a face divertida e moleque da política.

Weslian, 1m70 de altura, 76kg de peso e 67 anos, é a faceta sem graça, a cara do escárnio, o lado mais debochado a que chegou a política em Brasília, a capital de 190 milhões de brasileiros, supostamente o centro mais esclarecido de uma multidão de 135 milhões de eleitores.

Da família Roriz, grife de um clã político que governou o Distrito Federal em quatro mandatos, num total de 14 anos, Weslian fez sua retumbante e tardia estréia nas eleições de 2010 na noite de terça-feira (28), no debate da Rede Globo com os candidatos a governador, quando faltava menos de uma semana para o pleito de 3 de outubro.

Weslian entrou no jogo eleitoral pela porta dos fundos: foi apontada na sexta-feira (24) pelo marido, o ex-governador Joaquim Roriz, que na véspera viu o Supremo Tribunal Federal empacar (5 votos contra 5) no julgamento em que ele tentava escapar dos efeitos sanitários da Lei da Ficha Limpa, que cassou Roriz por envolvimento e renúncia em um escândalo de corrupção.

Com o cálculo político da esperteza, Roriz imaginou enganar a lei e iludir os eleitores trocando seis por meia dúzia. Renunciou preventivamente e botou no lugar a mulher, dona Weslian, uma simplória dona de casa, companheira de 50 anos de casamento e dedicada a obras de cunho social e benemerente. Assim, mantinha o nome Roriz na tela de votação e o número da coligação, o que reviveu o mote de um antigo seriado de TV: o ‘Casal 20’.

A frieza de carrasco de Roriz ficou evidente no debate da Globo, quando expôs a mulher a um dos mais sórdidos espetáculos de auto-imolação já encenados na política brasileira.

Weslian, coitada, surgiu no estúdio, patética e apatetada, tentando interpretar o papel que o marido lhe empurrou, goela abaixo, exibindo toda a fragilidade de um projeto político esfacelado pelo advento da Lei da Ficha Limpa. Honrada e despreparada, Weslian tropeçava na gramática, no raciocínio, no noviciado e na improvisação, trocando perguntas, confundindo candidatos e espantando a grande maioria dos 1,8 milhão de eleitores da capital brasileira.

Não soube nem mesmo administrar as dezenas de folhas, perguntas e respostas preparadas pela assessoria de Roriz, perdendo minutos preciosos tentando localizar a ‘cola’ salvadora. Não conseguiu nem mesmo usar, na plenitude, o tempo precioso reservado às perguntas e respostas. Não se fazia entender na hora de perguntar, não conseguia compreender a questão na hora de responder. Ao tentar responder uma pergunta sobre ‘transporte público’, dona Weslian lembrou que o candidato do PT, ex-comunista, não acreditava em Deus e devolveu com uma pertinente questão: “O senhor é contra o aborto?”.

Foi uma das cenas mais constrangedoras e pungentes de toda a campanha eleitoral de 2010, em qualquer quadrante do Brasil.

O desamparo e o abandono de dona Weslian, jogado às feras da política pelo marido impiedoso e insensível, desatou uma imprevista corrente de piedade para com a inesperada candidata, filha de um rico fazendeiro de origem libanesa que pastoreava o cerrado do Planalto no quadriláteiro que, anos depois, JK, Lúcio Costa e Oscar Niemeyer demarcariam para encravar a futura capital brasileira. Misericordiosos, os três candidatos adversários – do PT, PSOL e PV – fizeram perguntas entre si, poupando a criatura de Roriz, que tropeçava em seus papéis, em suas frases, em suas idéias inacabadas.

Weslian, cristã e católica fervorosa, invoca sempre Deus e Nossa Senhora, lembrando que acompanhou de perto a vitoriosa carreira do marido. “Ele sabe administrar uma fazenda como ninguém”, confessou no debate, fazendo uma involuntária metáfora sobre o estilo que o Casal 20 agora evoca nos últimos momentos do programa eleitoral de rádio e TV, com seu lema de campanha: “Weslian vai trazer de volta o jeito Roriz de governar”.

Mais do que a fraude explicitada pela manobra esperta do marido, Weslian encarnava, no estúdio refrigerado da Globo, o personagem ridículo e subalterno que joga no chão a política brasiliense. Uma proeza nada desprezível para uma cidade que já viu desfilar figuras inusitadas, folclóricas, divertidas ou lamentáveis como Fernando Collor, Cacique Juruna, Severino Cavalcanti, Paulo Maluf, Clodovil, Roberto Jefferson, Agnaldo Timóteo, José Roberto Arruda e o próprio marido de Weslian, o implacável Joaquim Roriz.

A fauna política que teima em habitar o bioma do Cerrado é gerada, em boa parte, pela flacidez das leis e pela tolerância ou pelo bom humor do eleitor que, na falta de um ‘Macaco Tião’ ou de um ‘Cacareco’, acaba descobrindo utilidades inesperadas ou debochadas para o seu voto. Agora mesmo, as previsões mais modestas apontam o palhaço ‘Tiririca’ como um dos campeões de voto para a Câmara dos Deputados, virtualmente eleito com quase um milhão de votos pelo PR de São Paulo, o que seria a maior votação do país.

Ao contrário do Supremo, que decidiu não decidir no julgamento de Roriz, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do DF resolveu, na tarde desta quarta-feira (29), brecar o truque do ex-governador, vetando toda a propaganda de rua e os programas de rádio e TV que exaltam o Casal 20, um flagrante desrespeito à lei e um claro embuste da renúncia voluntária e programada de Roriz. Ele não poderá mais aparecer ao lado da mulher, como fiador, conselheiro ou sequer ‘amado esposo’ da candidata inventada de última hora para escapar da lâmina afiada da Lei da Ficha Limpa.

Não existem evidências de que Joaquim Roriz inveje o quociente intelectual ou a vestimenta colorida de ‘Tiririca’. Mas a desastrosa aparição de Weslian na corrida eleitoral e no debate da Globo reforçam a suspeita de que Joaquim Roriz vê os habitantes de Brasília com o nariz vermelho de palhaços, como aqueles que acreditam que “a política, pior do que está, não fica”. Com a ajuda do ex-governador, sabe-se, sempre poderá ficar.

No domingo, dia 3, os eleitores conscientes da capital brasileira terão a chance de devolver esta piada sem graça, cravando seus votos em quem merece.

Não precisam nem eleger o macaco ou o rinoceronte. Basta repudiar a fraude.



quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Não tem jeito




Tem coisa que não se aprende.

A gente faz a primeira vez e se dá mal.

Faz a segunda, idem.

A terceira, a quarta... toda vez a é mesma coisa: quando se vê, já era. Inês é morta.

A gente sabe que não deve, sabe que vai se ferrar, sabe exatamente onde mora o perigo e mesmo assim repete, repete e repete. E todas as vezes entra solenemente pelo cano.



No meu caso, o perigo é o pardal que mora num poste a 130 metros da entrada do Batalhão do Corpo de Bombeiros da N1, um pouco antes do palácio do Planalto.

Não tem jeito mesmo. Me pegaram de novo.


quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Shame on you !!!


Você conhece alguém tão desconectado do mundo, tão desatento, tão desantenado a ponto de nunca ter ouvido falar em Black Eyed Peas, Green Day e Cranberries?


Eu.


Todos eles virão a Brasília em Outubro.

sábado, 4 de setembro de 2010

Programa de sábado




Porque hoje é sábado, fomos fazer um piquenique no Jardim Botânico. Sanduíches de presunto, torta de camarão, pãezinhos de queijo, bolo de chocolate e outras coisinhas deliciosas assim. Para beber, suco, refri, cerveja e vinho branco. Tudo muito gelado.
Toalha xadrez no chão, sol e sombra de pinheiros, almofadas e risos.
Boas companhias e a música de Janis Joplin.









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Como é bom morar em Brasília!...

sábado, 7 de agosto de 2010

Laranjada


Deu na Veja e no Blog do Noblat



"Corrupção: O ficha-suja Roriz estrela um vídeo-bomba


Roriz, candidato barrado (por enquanto) ao governo do Distrito Federal, aparece em vídeo entregando dinheiro - "uma propinazinha" - para um laranja confesso ficar calado

Diego Escosteguy

A cena é espantosa. Joaquim Domingos Roriz, o fazendeiro que fez fortuna às custas dos cofres públicos de Brasília nos últimos 20 anos, cumprimenta o interlocutor, recosta-se na poltrona e arrasta com as mãos uma caixa que estava embaixo da mesa de centro. “Quanto?”, pergunta de chofre o homem que governou por quatro vezes o Distrito Federal, mandatos nos quais distribuiu terras e contratos, colhendo em troca votos e dinheiro. “Foi dez, né?”, responde André Alves Barbosa, o interlocutor, que filmou o encontro na casa de Roriz, no começo deste ano, e cuja família é laranja do ex-governador em imóveis e operações bancárias.

Dez, no caso, corresponde a dez mil reais. “Isso tudo?!”, surpreende-se Roriz. O ex-governador retira maços de dinheiro da caixa. E repassa ao laranja. Um, dois, três, quatro... Enquanto conta a dinheirama, Barbosa cobra o pagamento de um empréstimo rural contraído por sua família, cujo beneficiário era, óbvio, Roriz: “Governador, como faz o negócio da fazenda? Vai resolver lá no Banco Real?”. Surgem mais pacotinhos de dinheiro. Diz Roriz: “Depois das eleições (...) vou no banco”. O laranja interrompe: “Vai e ajeita?”. Roriz completa: “Claro! (...) Se preocupar agora é pior”. E aparecem mais pacotinhos. “Seis, né?”, confere o ex-governador. “Falta (sic) mais cinco”, esclarece Barbosa. Dá-lhe pacotinhos em cima da mesa – e o laranja exulta: “Obrigado, governador!”.

Qual a razão para o pagamento? “É propinazinha para nois (sic) ficar quietinho”, explica o laranja André, também em conversa gravada, que deveria ficar quietinho precisamente sobre o fato de ser... laranja. André tentou vender essa e outras gravações ao deputado Alberto Fraga, do Democratas de Brasília, que assistiu à fita, assim como outras duas fontes localizadas pela reportagem. Ninguém admite ter comprado o material.

Esse lúgubre espetáculo cinematográfico, ao qual VEJA teve acesso, é o mais recente dos numerosos – talvez incontáveis – episódios de corrupção nos quais a estrela chama-se Joaquim Roriz. O ex-governador já foi acusado de receber propina, desviar recursos públicos, comprar votos, sonegar impostos, lavar dinheiro, esconder patrimônio, grilar terras; é uma lista de crimes tão extensa quanto seus 20 anos à frente da política brasiliense. Ostentar esse currículo, porém, nunca constituiu um obstáculo eleitoral para Roriz, que jamais perdeu um pleito.

Em 2006, elegeu-se senador, mas se viu forçado a renunciar ao cargo poucos meses depois, assim que surgiram gravações (sempre elas) nas quais ele discute a partilha de milhões de reais. Agora, ele tenta governar Brasília pela quinta vez, e lidera com tranquilidade as pesquisas de intenções de voto. Na semana passada, contudo, ele se transformou na mais vistosa vítima da lei Ficha Limpa, que impede gatunos condenados de concorrer nas eleições – ou de retornar à política depois de renunciar ao cargo para escapar à cassação, como é o caso de Roriz. Por quatro votos a dois, o Tribunal Regional Eleitoral de Brasília impugnou a candidatura dele.

Outros 100 candidatos no Brasil foram enquadrados pelo Ficha Limpa. Mas a impugnação de Roriz se revela emblemática. É o único barrado que concorre ao governo e lidera as pesquisas. Há outros políticos tão notoriamente corruptos quanto ele, como Jader Barbalho e Paulo Maluf, que também podem ser expulsos das eleições. Roriz, no entanto, é o único dessa vil estirpe que ainda demonstra força política para se eleger ao governo – Maluf, por exemplo, pode até receber uma avenida de votos para uma vaguinha na Câmara dos Deputados, mas não há obra superfaturada que o carregue novamente ao Palácio dos Bandeirantes.

De modo que Roriz simboliza à perfeição o tipo de político do qual o Ficha Limpa tentou livrar o país. Tanto o ex-governador quanto os demais barrados, contudo, ainda podem acabar aparecendo nas urnas. A razão disso é que ainda pairam incertezas acerca da legalidade do Ficha Limpa. O Tribunal Superior Eleitoral já se manifestou a favor da lei, inclusive para aplicá-la nestas eleições, mas o assunto certamente recairá sobre os ombros dos ministros do Supremo Tribunal Federal. Há a possibilidade de que eles só discutam o caso após as eleições. Se isso acontecer, candidatos como Roriz provavelmente concorrerão por meio de liminares na Justiça – e, se ganharem a eleição, só perderão o cargo se o STF confirmar e legalidade do Ficha Limpa.

Se o Supremo derrubar a lei, gatunagens como a do vídeos descrito no começo desta reportagem continuarão a prosperar. Na gravação com Roriz, a dívida a que se refere André foi contraída em 1995 por seu avô, Geraldo Alves Barbosa. Somava 210 mil reais e se destinava à criação de gado. O avô-laranja era dono, ao menos no papel, da Agropecuária Estiva. Ele deu como garantia ao banco os 12,5 mil alqueires da Fazenda Queimados, que fica em Goiás. De acordo com André, o laranjinha, tanto a agropecuária quanto a fazenda sempre foram de Roriz.

Localizado pela reportagem, Luiz Antônio Barbosa, um dos filhos do avô-laranja, que consta como sócio da agropecuária e como antigo dono da fazenda, disse nunca ter tido qualquer empresa ou imóvel rural. “Nunca tive fazenda, moço. Mas o meu pai já teve coisas com o Roriz”, ele explica. Questionado se era laranja do ex-governador, Luiz Antônio afirmou: “Não posso falar”. O Banco Real executa judicialmente a dívida e pede há anos a penhora da fazenda. Em 2000, contudo, a fazenda mudou de dono – quer dizer, no cartório. A família-laranja ficou com a dívida, mas repassou a propriedade das terras para Osvaldino Xavier, amigo de Roriz e dono da Nely Transportes, empresa que coletava lixo em Brasília. “Ele também é laranja”, diz André.

A reportagem foi até a fazenda, para olhar de perto o laranjal. Na entrada do local, uma placa informa que o empresário-amigo Osvaldino é o dono. Mas um funcionário logo avisa: “A fazenda é do Juliano”. E quem é Juliano? Trata-se de Juliano Roriz, neto do ex-governador. VEJA o encontrou à porta da fazenda. Travou-se o seguinte diálogo:

- Esta fazenda é do seu avô?

- Não, é minha.

- E por que o nome do proprietário na placa é Osvaldino?

- Ah... Não sei.

- Ele é o dono da fazenda ou é você?

- Sou eu.

- Há quanto tempo você tem a propriedade?

- Não sei.

Procurado, Osvaldino garantiu ter efetivamente comprado parte das terras da família-laranja, mas disse ter vendido 20% delas para a Agropecuária Palma, que pertence a Roriz. O ex-governador não quis se pronunciar."



 


quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Já deu.

Confesso que já não tenho mais paciência para ouvir esse papo de direito adquirido que os advogados e simpatizantes dos “fichas-sujas” não se cansam de repetir. Como se, de volta aos tempos de Gengis Khan, alguém ainda pudesse pretender direito adquirido ao butim.

Encaro as eleições como um concurso público (*), ao qual se inscrevem as pessoas que reúnem as condições estabelecidas no edital. Tudo muito simples. Entre as condições, o candidato não pode ter sido condenado em segunda instância, e não pode ter renunciado a mandato eletivo. Ponto final.

Apesar do horizonte cinzento, apesar do (des)entendimento do Tribunal Eleitoral do Maranhão, por enquanto o selinho da coluna à direita fica onde está. Ainda estou botando fé na lei da ficha-limpa. Eu e a Velhinha de Taubaté.
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(*) Do Aurélio
concurso - [Do lat. concursu.] - Substantivo masculino.
1.Ato ou efeito de concorrer.


Vi no blog da Paola Lima que hoje vai ter mobilização em frente ao TRE, em defesa da aplicação integral da lei nas eleições de outubro.

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Em tempo:

Enfim, uma boa notícia: o TRE indeferiu a candidatura de Joaquim Roriz ao governo do GDF com base na lei da Ficha Limpa: o dito cujo renunciou ao mandato de senador para fugir a processo de cassação por quebra de decoro parlamentar. Lembram? 
Olha a velhinha de Taubaté aí, gente!!!!

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Para escolher um candidato

Da série Ninguém Merece


Já que estamos em época de campanha, resolvi dar uma olhada na lista dos candidatos a uma vaga na câmara Distrital de Brasilia, disponível no site do Tribunal Superior Eleitoral.


É muita gente, poucos os conhecidos. (*) As informações disponíveis limitam-se ao nome, filiação partidária, coligação, nome de urna, foto, um curriculum minimalista e pouco convincente, e declaração de bens.

Eu me detive nos "nomes de urna". Acho que podem dizer muito sobre um candidato. Afinal, é como ele pretende ser conhecido/reconhecido por seus eleitores, e é de livre escolha.

Segue abaixo o resultado da minha pesquisa.

Tendo por base os “nomes de urna” registrados no TSE, o cenário eleitoral do DF é o seguinte:

- são 23 doutores ou doutoras (doutor fulano, doutora sicrana), 29 professores ou professoras e 3 mestres;

- 5 bispos, 1 bispa, 11 pastores, 1 obreiro, 1 reverendo, 2 irmãos, 1 irmã e 1 missionária;

- 1 delegado, 1 bombeiro, 3 coronéis, 2 cabos, 3 sargentos, 2 subtenentes, 2 majores e 1 guarda;

- 2 tios, 1 tia, 2 donas;

- 1 dentista, 1 enfermeira, 1 engenheira, 1 cabeleireiro, 1 contador, 1 exterminador de insetos, 1 maitre e 1 radialista.

A maioria dos candidatos escolheu nomes “normais”. Muitos aproveitaram seus apelidos e fizeram proliferar Benés, Chicos, Zés, Carlões, Carlinhos, Chiquinhos e outros “ões”, “inhos” e “inhas”.

Alguns apelidos merecem destaque:

Abençoado, André Esqueleto, Arcanjo Amigo, Bombom, Dorinha da Atividade, Espigão, Gavião, Geninho, Gordinha do Rabecão, Ivan Saia da Fila, Jabá, Jane da Terceira Idade, Jocilon Energia Positiva, Kátia Queridinha, Mariazinha dos Taxistas, Negão do Paranoá, Oswaldo Cascatinha, Tatu, Toninho Abeia, Valdeci Ficha Limpa, Veinho Vendedor, Wilson Bocão.

Com veia musical, aparecem:

DJ Jamaica, DJ Macarrão, João do Violão, Nosso Cantor Wellington José, Paulo Djorge, Rick Marantz, Roberto Remixx, Simone Hip-Hop, Tião Tamborim e Valério da Banda Maranata.
E, finalmente, os “pops”:

Kaká, Keith Marrone, Michel Platini, Xororó, Alexandre Garcia e Joãosinho Trinta. Esse último, diga-se a bem da verdade, é ele mesmo.
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(*) Alguns eu preferiria nem conhecer.
 

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Desfaçatez

Do Blog do Noblat

A desfaçatez está no DNA dos políticos. E não se passa uma semana sem que eles ofereçam provas abundantes disso. Exemplos?

Candidatos às próximas eleições, os senadores Ideli Salvatti (PT-SC), Raimundo Colombo (DEM-SC), José Agripino Maia (DEM-RN) e Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN) pediram licença dos cargos para cuidar de suas campanhas.

Consta do regimento interno do Senado que licença para fins particulares é de no máximo 120 dias. Nesse caso, o suplente não assume.

A Constituição manda dar posse ao suplente no 121º dia se o cargo permanecer vago.

Como driblar o regimento interno e a Constituição de uma só vez para que o suplente assuma logo? Simples: tira-se uma licença médica e emenda-se com a licença para fins particulares.

Oficialmente, Ideli, candidata ao governo de Santa Catarina, ocupou-se com a saúde entre os últimos dias 8 e 10. A partir de hoje entrará de licença por motivos particulares.

Adversário de Ideli, Colombo adoeceu no último dia 8. Ficará bom amanhã. A partir do dia seguinte entrará de licença até o fim da campanha.

Por causa da saúde, Agripino sairá de circulação entre os dias 15 e 17 deste mês. E Garibaldi entre 15 e 20.

Os suplentes agradecem.

Senadores por quatro meses, passam a desfrutar de todas as vantagens do cargo – inclusive o direito à aposentadoria.

Em troca, se empenharão para que a estrutura dos gabinetes continue funcionando a contento. Quer dizer: funcionando para facilitar a eleição dos que a comandaram até aqui. Sempre é possível ao senador temporário arranjar empregos para afilhados.

O que disse Joaquim Roriz quando lhe perguntaram outro dia sobre o risco de ser atropelado pela Lei da Ficha Limpa e impedido de concorrer ao governo do Distrito Federal?

Disse: “Eu não sei o que é Ficha Limpa, não tenho condenação. Renunciei ao mandato de senador dispensando todas as mordomias".

O Ministério Público pediu a impugnação do registro da candidatura dele.
A Lei da Ficha Limpa barra candidaturas de políticos que renunciaram ao mandato para escapar de processo por quebra de decoro.

Com medo de ser cassado e de perder os direitos políticos, Roriz renunciou ao mandato de senador em 2007 depois da divulgação de uma conversa sua com o ex-presidente do Banco Regional de Brasília sobre a partilha de um cheque de R$ 2,2 milhões do empresário Nenê Constantino.

O mensalão do DEM derrubou o ex-governador Arruda. O vice Paulo Octávio foi obrigado a renunciar ao cargo – assim como o presidente da Câmara Legislativa. Um deputado distrital acabou cassado.

Do total de 24 deputados, pelo menos 16 se envolveram com a bandalheira que começou no último governo de Roriz, segundo a Polícia Federal. E Roriz alega candidamente que renunciou a mordomias...

Há limites para a desfaçatez dos políticos?

Perguntem a Lula se ele fez campanha antecipada para Dilma Rousseff. Responderá que não. Mas por ter feito foi multado seis vezes pela Justiça. Nenhum presidente da República foi multado tantas vezes por violar a lei.

Não, não perguntem a Dilma pelo dossiê sobre despesas sigilosas do governo Fernando Henrique montado na Casa Civil quando ela era ministra.

Que dossiê? Que pergunta mais velha! Jamais existiu dossiê. Existiu um banco de dados para atender a pedidos de informações do Tribunal de Contas da União.

Dilma jamais assinou o programa de governo enviado ao Tribunal Superior Eleitoral para acompanhar o pedido de registro de sua candidatura. É verdade que ela rubricou cada página do programa retirado às pressas e substituído por outro mais ameno.

Mas rubrica é uma coisa, assinatura é outra, ensinou Dilma.

Os dicionários ensinam que rubrica é assinatura abreviada. Uma vale tanto quanto a outra. Se não valesse, a rubrica seria dispensável.

Para não admitir que assinou o programa sem ler, Dilma preferiu desmoralizar o peso de sua própria assinatura.

Adiante. É o moto-contínuo.


"Acho que meu patrimônio diminuiu fazendo política. Diminuiu, mas não quero dizer quanto. Eu não tive nenhum interesse, nunca tive nenhum interesse em obter facilidades com a política. Interesse zero. E ai daquele que fizer proposta para ter vantagem de governo.”

Joaquim Roriz, candidato a governar o Distrito Federal pela quinta vez

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Vergonha


1 - Sai Eurides entra Lucena, sai Lucena entra Vigão.
2 - Roriz continua candidato a governador pelo PSC. Diz que tem a “ficha-limpa".
3 - O DEM e o PSDB apoiam Roriz no âmbito distrital. No plano nacional apoiam a candidatura de Serra, apesar de o partido de Roriz apoiar a Dilma.
4 - O STF rejeita a intervenção por 7 a 1.

Enquanto isso...
diz o  Procurador-Geral da República que o "suposto"  esquema de corrupção no GDF continua numa boa.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Curto circuito


Junior Brunelli, o deputado agradecido a Deus pela propina nossa de cada dia, renunciou ontem para não ser cassado nas investigações do mensalão do DEM. Seu suplente é Geraldo Naves, do DEM, que está preso por tentativa de suborno de testemunha desse mesmo mensalão.
Estamos fú.
Intervenção Já!

terça-feira, 2 de março de 2010

Hoje em Brasília

Está no Correio Braziliense de hoje:


Suplentes assumem

Os suplentes convocados para substituir os sete deputados — eram oito, mas Leonardo Prudente renunciou na última sexta-feira — citados nas denúncias de corrupção da Operação Caixa de Pandora tomam posse hoje na Câmara Legislativa. Os novatos têm a missão de participar das votações em plenário sobre os quatro pedidos de impeachment contra o governador afastado José Roberto Arruda (sem partido). Eles receberão R$ 413 por dia de trabalho (*), mas não terão direito a gabinete, a funcionários nem a verba indenizatória.

Na sessão extraordinária desta manhã, os suplentes acompanharão a leitura do parecer de Chico Leite (PT), relator da Comissão Especial, criada para analisar os processos de cassação contra Arruda. E na quinta-feira, participam da votação em plenário para referendar ou não o posicionamento da comissão. Estão previstos para tomar posse Olair Francisco (PTdoB), Mário Gomes (candidato pelo PP), Roberto Lucena (PMDB), Wigberto Tartuce (que se candidatou pelo PMDB), Ivelise Longhi (PMDB), Joe Valle (PSB) e Washington Mesquita (foi candidato pelo DEM).

Em 20 de janeiro, a Justiça determinou que nenhum dos oito deputados citados nas denúncias de suposto esquema de corrupção poderia participar de qualquer ato referente ao governador afastado. São os parlamentares Eurides Brito (PMDB), Junior Brunelli (PSC), Benício Tavres (PMDB), Aylton Gomes (PR), Rogério Ulysses (sem partido), Benedito Domingos (PP) e Rôney Nemer (PMDB), além de Prudente. A Procuradoria-Geral da Câmara recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF) para derrubar a determinação, mas até agora o presidente da Corte máxima, Gilmar Mendes, não julgou o recurso. A Procuradoria-Geral da República (PGR) se manifestou contrariamente à suspensão da decisão judicial.

Os suplentes analisarão os pedidos de impeachment na sala de reunião da presidência da Casa. O trabalho do médico Roberto Lucena (ex-secretário da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural, Emater-DF) e de Joe Valle sairá a custo zero para a Câmara. Ambos afirmaram que abrirão mão do salário proporcional de deputado (**). Irmão do empresário Gilberto Lucena, dono da empresária de informática Linknet investigada com uma das supostas financiadoras do esquema de arrecadação e pagamento de propina no DF, Roberto defendeu que seu voto será consciente, imparcial e austero: “O que a população quer eu sei e votarei conforme isso” (***). A reportagem não conseguiu localizar os demais suplentes.

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Comentários do Blog:

(*) - Há quem apoie a idéia de que deputados só deveriam receber pelos dias trabalhados,o que equivaleria a dois ou três dias por semana, na melhor das hipóteses. Outros entendem que só deveriam receber pelos dias não trabalhados, como incentivo ao absenteísmo. O prejuízo do erário, garantem os partidários da idéia, seria menor.

(**) - Por que alguém trabalharia de graça? Será que os suplentes já se consideram suficientemente remunerados? Pelo jeitão da coisa, o custo zero para a Câmara tende a se transformar em  custo altíssimo para o cidadão contribuinte.

(***) - Consciência, imparcialidade e austeridade ... cadê o Aurélio?

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Está rolando uma petição para que o Projeto da Ficha Limpa seja votado ainda este mês, para começar a valer já nas eleições de outubro. Quem quiser aderir, pode clicar no link abaixo

http://www.avaaz.org/po/brasil_ficha_limpa/?vl

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O que você mandaria para um buraco negro?

Vou começar pedindo desculpas pelo tamanho deste post. Tentei resumir, mas a esculhambação é muita, não cabe em pouco espaço.


Quando escrevi no último post que “certas ausências preencheriam grandes lacunas”, estava pensando em política. Mais concretamente, na política brasiliense, na contribuição do DF ao nosso grande e fedorento mar de lama nacional.

Brasília vai fazer 50 anos em abril. Foi fundada em 1960, cresceu e consolidou-se durante a ditadura militar. Não tínhamos representação política, voto só para síndico de bloco e para Comodoro do Iate Clube. Os cidadãos brasilienses eram cidadãos de segunda classe.

Em 1986 a Assembléia Constituinte da “Nova República” conferiu aos habitantes do DF o direito de representação no Congresso Nacional. Elegemos pela primeira vez oito deputados federais e três senadores.

Em 1990 elegemos um governador e os primeiros deputados distritais. Tínhamos chegado à tão almejada “autonomia política”.

Foi bom?

Vamos examinar a questão mais de perto:

No plano nacional tivemos três senadores que perderam o mandato:

- pela primeira vez na história do Brasil, um senador foi cassado por falta de decoro parlamentar, envolvido com um juiz lalau em um esquema de desvio de verbas de obras públicas. Esse senador esteve também envolvido com o primeiro presidente impichado, na mal explicada operação-Uruguai.

- outro senador renunciou ao mandato para fugir à cassação, depois de ter violado o sigilo do painel eletrônico do senado, com objetivos inconfessáveis. O senador não se afastou da vida publica, logo voltou à cena como deputado federal e como governador. Transformou-se no primeiro governador a ir em cana no exercício do cargo, acusado de corrupção.

- o terceiro senador, depois de 13 anos como governador do DF, teve também que renunciar ao seu primeiro mandato legislativo para fugir à cassação. Caiu nas malhas da polícia numa operação que investigava desvio de dinheiro público no Banco de Brasília. Na época, o ex-governador e então senador alegou que o dinheiro em seu poder seria fruto de um empréstimo contraído com um poderoso empresário do ramo de transportes, para comprar uma bezerra.

- o primeiro suplente do senador da bezerra teve muita dificuldade para assumir o mandato, em vista do currículo criminal acumulado ao longo de sua trajetória política. Mas conseguiu, contornou os obstáculos e está lá até hoje, auto-proclamado bilionário.

No âmbito regional, a situação é a seguinte:

- O Governador eleito do Distrito Federal está sendo acusado de comandar um milionário esquema de tunga ao dinheiro público, do qual participariam deputados, secretários de governo, assessores de todos os calibres, altos, médios e baixos funcionários do GDF, empresários e concessionários de serviços públicos, com as respectivas mães, esposas, amantes, filhos, filhas, genros, cunhados e motoristas. Filmado com a mão na bufunfa, alegou que o dinheiro destinava-se à compra de panetones para os pobres. Está preso, enquanto aguarda o julgamento definitivo do habeas corpus negado em caráter liminar. Responde a quatro processos de impeachment.

- O Vice-Governador, que assumiu interinamente, também foi apontado como partícipe na tunga. Estava prestes a ser expulso do seu partido mas desfiliou-se a tempo. Em prol da “governabilidade”, anunciou diversas vezes a sua renúncia e voltou atrás. No último sábado, para angariar apoios, convidou os 24 deputados da câmara legislativa para uma reunião de trabalho em sua residência oficial, com direito a churrasco e cerveja. Apesar da boca-livre, apenas cinco deputados toparam aparecer ao seu lado. Ontem capitulou frente ao óbvio e renunciou. Também respondia a vários processos de impeachment.

- O Presidente da Câmara Legislativa, o segundo na linha de sucessão, foi filmado escondendo maços de dinheiro nos bolsos e nas meias. Com apoio de seus pares, fez o possível para melar as investigações e o andamento dos processos de impeachment. Depois de muita relutância teve de afastar-se do cargo por determinação do Tribunal de Justiça, mas ainda preserva o mandato.

- Foi substituído por um amigo de fé e irmão camarada do Governador afastado, eleito pela maioria absolutíssima de 15 votos a favor e sete contra. Em contraste com a sua reputada fidelidade, o novo presidente da CL ostenta um currículo bastante diversificado. Já vendeu picolés, foi frentista, lanterneiro, pintor, balconista e cobrador de ônibus. Hoje é empresário do ramo de supermercados e está filiado ao PR, depois de ter pertencido aos quadros do PSD, PTB, PMDB e PRONA. Ontem, com a renúncia do Vice, virou governador.

- Oito deputados distritais foram acusados de envolvimento nos esquemas da propina e estão impedidos pela justiça de participar das atividades relativas à análise e tramitação dos processos de impeachment contra o governador e o vice. Trata-se de restrição pontual, com mandatos e salários preservados. Dada a possibilidade de falta de quórum para tratar do único assunto que interessa, cogitou-se inaugurar a figura do “suplente de deputado ad-hoc”, com jus a salário integral, gabinete, telefone, verbas de representação e todo o resto. Ao cidadão brasiliense caberia custear oito deputados extra-cota.

- Dos oito deputados envolvidos no esquema, espera-se para breve a renúncia dos três que foram filmados recebendo dinheiro (o da meia, o da oração e a musa do carnaval). A saída clássica para evitar a perda de mandato por falta de decoro parlamentar. Caso as renúncias venham a se concretizar, assumiriam os respectivos suplentes. Encabeçando a lista dos suplentes encontra-se o irmão de um dos empresários acusados de envolvimento no caso, e uma pessoa que está presa por tentativa de suborno de testemunhas.

Dadas essas constatações, tenho que simpatizar com o pedido de intervenção federal no executivo e no legislativo encaminhado pelo Procurador-Geral da República, com a tese de que a linha sucessória do GDF está contaminada. Ele está sendo modesto. A contaminação estende-se para muito além da linha sucessória. A meu ver, inclui também o futuro vislumbrado para depois das próximas eleições.

O jornal de hoje noticia que “distritais se unem para resistir à ameaça de intervenção federal”. Isso quer dizer que situação e oposição vão formar uma coalizão de resistência. Dá medo. Em Brasília, hoje, quando alguém fala em oposição, está se referindo ao senador da bezerra, a seus correligionários e à turma do segundo mensalão. Que tal? Outro dia ouvi o Alexandre Garcia dizer [referindo-se aos políticos] que “se eles  estão contra a intervenção, deve ser bom”. Concordo com o Alexandre.

Finalizando essa loooonga chorumela, só me resta botar fé no efeito borboleta descrito pela teoria do caos. Espero sinceramente que o acelerador de partículas crie um buraco negro suficientemente grande para varrer toda essa corja para fora do universo conhecido. Por mim, pode levar o governador e a assembléia legislativa inteira, com porteira fechada. Essas ausências preencherão lacunas.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

A musa do Pacotão 2010



Fui ontem ao Carpe Diem esperar o pacotão passar, mas o pacotão não passou. Pelo que li no jornal, deve ter sido bom:

O calor excessivo que esquentou o asfalto da concentração do Pacotão, desde 11h da manhã de ontem na entrequadra comercial 302/303 Norte, não desanimou os foliões do grupo carnavalesco que completa 32 anos em 2010 e que continua tendo como principal marca a crítica política. “Estávamos pensando em fazer um enredo homenageando os 50 anos de Brasília, mas fomos brindados com o escândalo do panetone”, brincou Joca Pavaroti, um dos organizadores do bloco. Este ano, foram inscritas cerca de 50 composições no clássico concurso de carnaval. Das 25 escolhidas para integrar a coletânea lançada em CD, todas versam sobre a situação política do Distrito Federal, inclusive a campeã de 2010, a canção de duplo sentido O bolsetão da Eurides.

“É uma pena termos ficado defasados em relação aos últimos acontecimentos”, complementou o organizador , em alusão ao recente episódio da prisão do governador José Roberto Arruda, ocorrida na última quinta-feira, 11. Os escândalos de corrupção envolvendo o alto escalão do governo do DF foi mesmo um prato cheio para os participantes do tradicional e irreverente bloco. Falsos panetones e bolsas recheadas de dinheiro — de mentira — foram os adereços mais usados nas fantasias dos foliões e eram exibidos sem nenhum pudor.

Com atraso de mais ou menos uma hora, o bloco deixou a concentração rumo ao Gran Folia, passando pela W3 Norte, por volta das 16h. Um problema na embreagem do trio elétrico fez com que o desfile fosse interrompido por meia hora. Cerca de 40 integrantes do movimento Fora Arruda também marcaram presença na folia. Empurrando mini-carros alegóricos construídos em cima de carrinhos de supermercado, eles caminharam desde o Diretório Central dos Estudantes da Universidade de Brasília (UnB) até o encontro com o bloco ainda no trajeto da W3.

Um dos veículos levados estava enfeitado com fotografias de parlamentares envolvidos no escândalo político cobertas de baratas. Outro representava uma maquete do setor Noroeste, futuro bairro de Brasília. O objetivo era alertar sobre o impacto da construção de novos prédios para as reservas do cerrado. Este ano, a saída do Pacotão teve um sabor especial para o professor de história Aluísio Queiroz. Aos 68 anos, ele comemorava o 50º carnaval na pele do Palhaço Bimbo. “A minha fantasia pode até servir para os políticos que estão aí”, brincou.

Segundo a organização do evento, pelo menos quatro mil pessoas participaram do desfile. A Polícia Militar, no entanto, confirmou a expectativa inicial, que era de três mil foliões. Até o fechamento desta edição, não havia registro de nenhuma ocorrência durante o percurso do Pacotão.
Ano que vem eu vou.
Por hoje, fica o registro e o LINK para quem quiser ouvir a marchinha vencedora.


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Desta vez vai acabar em panetone

Hê, hê.
O Pacotão deve sair quente, no Domingo.
Acho que vão precisar substituir a marchinha do sapo e da perereca pelo sambão do panetone.