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segunda-feira, 17 de maio de 2010

Siquim (Sikkim) - O Tibete da Índia

O Siquim fica no Himalaia, ao norte da Índia, bem espremido entre a China (Tibete), o Nepal e o Butão.

Foi no passado uma monarquia independente, com reis, rainhas, príncipes e princesas. Tal e qual o marisco na briga entre o mar e o rochedo, o pequenino Siquim sofreu um bocado com os embates das  nações que, ao longo da história, ambicionaram o poder e a supremacia naquela região.

O reino foi fundado em 1641. Em 1888 tornou-se protetorado britânico, herdado pelos indianos em 1947, por ocasião da independência. A invasão do Tibete pela China enfraqueceu a autonomia do Siquim e aumentou sua dependência à Índia até que em 1975, depois de um plebiscito prá lá de suspeito, foi sumariamente anexado. Em 2003 a China reconheceu o Siquim como parte da Índia, em contrapartida ao reconhecimento indiano do Tibete como parte da China. E desse jeito o assunto “independência do Siquim” foi encerrado. Achei no Google um artigo publicado no JB naquela época, escrito pelo jornalista Luis Edgar de Andrade, bem esclarecedor: Réquiem para o rei do Siquim.

O último rei exilou-se nos Estados Unidos, onde morreu em 1982. Dizem que de desgosto. Teve duas esposas, uma das quais, ex-socialite norte-americana, mora em Nova Iorque e dedica-se a promover o eco-turismo no Siquim.

Matéria prima para o eco-turismo é o que não falta. A biodiversidade do Siquim é enorme, sem falar da Kanchenjunga, a terceira montanha maior do mundo. As orquídeas são um deslumbramento. Os rododendros e jacarandás também.





Gangtok, a capital do Siquim

Gangtok: Rua de comércio exclusiva para pedestres 

Portão de entrada do antigo palácio real. Fechado para visitação
Monastério Rumtek, sede do ramo Kargyupa do budismo tibetano 

Monastério Rumtek
Peeling: Monastério Pemayangste, um dos mais antigos e importantes do Siquim, em dia de festa

Exposição de orquídeas em Gangtok

Trabalho solidário: reparem na cordinha 

Uma segura a pá, a outra ajuda puxando a cordinha

E juntas enchem o balaio

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Coisas para se fazer em Darjeeling e arredores

1 - Sacolejar de jardineira com as malas amarradas no teto


2 - Distrair-se com os macaquinhos que aparecem pelo caminho.

3 - Fazer uma visita ao mosteiro budista Yiga Choling (Ghoom Monastery), construído em 1875 e rodar todas as rodas de oração (sempre no sentido horário!!!)



4 - Sucumbir ao assédio das vendedoras e comprar lindas pashiminas “real fake”.


5 - Andar de Maria Fumaça entre Darjeeling e Ghoom, na Darjeeling Himalayan Railway. O trem tem a bitola mais estreita que já vi, e foi considerado patrimônio da humanidade pela UNESCO. Esse programa, para quem já andou de Maria Fumaça alguma vez na vida, pode ganhar um machadinho no Michelíndio.



6 - Visitar o Centro de Ajuda a Refugiados Tibetanos para comprar artesanatos





7 - Visitar o museu do Himalayan Mountaineering Institute para ver com seus próprios olhos os equipamentos usados por Tenzing Norgay e Edmund Hillary em 1953, quando foram os primeiros a pisar no topo do monte Everest. É inacreditável, tecnologia zero. É preciso ver para crer.



8 - Ir ao no jardim zoológico para conhecer o panda vermelho, animal símbolo da região, e que só existe por aqui.



9 - Tomar chá. E tomar todas.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Contatos Imediatos de Terceiro Grau

Sinopse: um bando de gente (eu inclusive), vinda de todas as partes do mundo, pula da cama às três e meia da madrugada, no maior frio, para pegar um jipe, subir um morro e garantir um lugar de observação privilegiado. Alguma coisa está prestes a acontecer, mas ninguém sabe muito bem do que se trata. Na verdade, essa coisa pode ou não acontecer, daí a expectativa generalizada.

O morro se chama “Tiger Hill”, fica a 11 km ao sul de Darjeeling. O evento esperado é o nascer do sol e a possibilidade de avistar e receber as bênçãos auspiciosas do Kangchendzonga, a montanha mais alta da Índia e a terceira maior do mundo, com 8.598 metros.

Não foi ainda nesse dia que ela apareceu para mim. Fez jogo duro. Estávamos fora da estação. Tive que esperar pacientemente o dia do vôo entre Paro, no Butão e Katmandu, quando lavei a alma. Kanchendzonga e Everest, os dois, bem ali, em toda sua glória, ao alcance do clic da minha máquina.


Me senti no próprio set de filmagem de "Contatos Imediatos"

Todo mundo de arma (câmera) em punho. Só faltou o Spielberg.

Tinha até sala VIP.

Quando o sol apareceu houve festa, mas o dia estava nublado.

O programa ganhou duas machadinhas no Guia Michelíndio.

Em compensação, taí a Kangchendzonga, clicada do avião entre Paro e Katmandu, vôo cinco estrelas.

Com direio ao Everest também. Privilégio de quem se senta na janela do lado direito.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Gorkhaland

O norte do estado indiano de Bengala Ocidental, em pleno Himalaia, é habitado por uma população budista de origem nepalesa.

A porta de entrada da região é o aeroporto de Bagdogra, a 2.200 m de altitude, perto da cidade de Siliguri.

É a terra do chá. Do melhor chá do mundo, dizem experts no assunto: o chá de Darjeeling. Toda a economia do lugar gravita em torno das plantações de chá, 100% orgânico, colhido artesanalmente três vezes por ano.

Para quem chega da calorenta e poluída Delhi, a impressão é de ter entrado em um universo paralelo. A viagem de Bagdogra a Darjeeling é, no mínimo, surreal. A paisagem, lindíssima. Morro de um lado, pirambeira de outro. Os motoristas que trafegam pela estradinha sinuosa e estreita parecem nunca ter considerado seriamente a crendice globalizada de que dois corpos não podem ocupar simultaneamente o mesmo lugar no espaço. Tiram de letra. Deve ser por obra do Buda.

 
A estrada é muito estreita

Mas o espírito de cooperação é grande.

Quase não dá para acreditar, mas passam todos. Questão de boa vontade. 

Existem florestas ainda nativas.

Pequenas vilas entre as plantações de chá

A colheita é artesanal. A vida é dura para os trabalhadores do chá

Durante o trajeto, a atenção do visitante é despertada para as inscrições em inglês em cartazes, placas e muros reivindicando a criação de “Gorkhaland”. Trata-se de um movimento separatista que pretende desvincular a região do chá do estado de Bengala Ocidental, cuja capital é Calcutá, para formar um novo estado, com autonomia política, administrativa e financeira, com capital em Darjeeling. Por enquanto é apenas um propósito, mas tem integral apoio da população.

Gorkhas, ou gurkhas, são guerreiros nepaleses famosos por sua coragem, força e resistência física. As forças armadas indianas e britânicas possuem regimentos "gurkhas".  São extremamente hábeis no uso de uma faca de lâmina curva, especialmente concebida para cortar jugulares.

Dá para ver as facas gurkas no canto inferior esquerdo do cartaz.

domingo, 9 de maio de 2010

Índia: Primeiras Impressões

Delhi: Vista aérea


Cheguei a Delhi de madrugada, procedente de Istambul, depois de seis horas de vôo. Acertei o relógio: mais duas horas e meia de diferença no fuso. Prá quê essa meia hora, gente?

Estava preparada para o pior: calor, aglomerações, assédio de pedintes, trânsito caótico...

Sem necessidade. De madrugada a muvuca ainda não havia começado.

Apesar do horário, a recepção foi cordial: um “namastê” sorridente e um colar de flores amarelas e cheiro forte. Na verdade eram cravos de defunto, mas tudo bem. Valeu a intenção.

Check-in no hotel, banho, café da manhã, duas horas de descanso e saímos para passear em Delhi. Achei a cidade desorganizada, suja, cheia de obras, tapumes e entulho pelas ruas. Obras de metrô, ninguém merece. A confusão do trânsito me pareceu agravada pela mão inglesa, pelo barulho das buzinas, das muitas motocicletas, tuc-tucs e vacas ambulantes.

A Índia é muito religiosa. já foram contados 300 milhões de deuses, para uma população de mais de 1 bilhão e 100 milhões de habitantes, na sua maioria hindus. Mas existem também muçulmanos, sikhs, jainistas, baha’is, cristãos, budistas e sei lá mais o quê. Todos falam em tolerância religiosa, apesar dos grandes e intensos conflitos que pontuam a história contemporânea do país. Os esquemas de segurança em hotéis e aeroportos são evidentes e muito pesados.

Sociedade pluralista, multi-religiosa, multi-étnica, multilíngue. As notas de rúpia, todas com a efígie do Mahatma Ghandi, são escritas em 15 diferentes idiomas nacionais, além do hindi e do inglês.

A maior parte da população é vegetariana. Quem não é, consome carne de galinha, de cabra, peixe ou carneiro. Não existe carne de vaca exposta à venda no mercado. Só no escondidinho.

As vacas são símbolos de abundância, generosidade e mansidão. Fornecem leite (manteiga, iogurte, etc) e esterco para fertilizar a terra. Quando ficam velhas e não procriam mais, são soltas a esmo. Não podem ser mortas, feridas nem molestadas. São tidas em alta conta. Sagradas. Como não existem pastos disponíveis, buscam alimento fuçando os montes de lixo espalhados pelas ruas.

A sociedade indiana é muito tradicional, e está baseada em um sistema de castas. São quatro castas principais, com uma infinidade de subdivisões e sutilezas tão complicadas que não encontrei ninguém muito disposto a se dar ao trabalho de tentar explicar.

É mais ou menos assim: Brahma é o deus criador. De sua cabeça saíram os brâmanes, a casta mais elevada. São os sacerdotes, filósofos, professores, educadores. Os intelectuais, ligados a atividades espirituais.

Dos braços de Brahma saíram os Xátrias, que são os militares ou governantes. Abrangem todos os administradores e policiais. Dos soldados aos generais.

Das pernas de Brahma saíram os Vaixás, que são os comerciantes, agricultores e pastores.

Dos pés saíram os Sudras, que são os que carregam realmente o piano: artesãos, camponeses, operários, trabalhadores braçais.

Os que saíram da poeira sob os pés de Brahma estão fora do sistema de castas. São os párias, dalits, ou intocáveis. São pessoas ou descendentes de pessoas que violaram códigos de castas, e por isso foram punidas.

Estrangeiros também estão fora do sistema de castas mas, como não são hindus , o assunto nesse particular não costuma ser aprofundado .

As castas são estanques, não há possibilidade de ascensão, pelo menos no transcurso de uma existência. Só na próxima encarnação.

O sistema de castas foi constitucionalmente abolido em 1950, depois de contestado pelo Mahatma Ghandi em nome dos direitos humanos. No entanto, continua tão presente na Índia de hoje que ensejou até a criação de um sistema de cotas para ingresso em universidades e acesso a empregos públicos, muito semelhante ao sistema de cotas raciais que atualmente divide as opiniões dos brasileiros. E igualmente contestado.

Vacas sagadas fuçando lixo

 
Hotel - Bagagem dos hóspedes passa pelo RX

Pesadelo urbano

Tuc-tuc: transporte coletivo

Buzine, por favor

Charme na borracharia

Momento de descontração: Telma, eu não sou gay