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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O fogo da Quimera


A Quimera era um terrível monstro que expelia fogo pelas narinas e devastava as planícies da Anatólia.  Tinha três cabeças, todas diferentes, corpo de leão e cauda de serpente. Uma mistura de DNAs  tão exdrúxula que, até hoje, chamamos de “quimera” todas as coisas aparentemente muito fantasiosas ou de existência improvável.

A Quimera causava grandes estragos no reino da Lícia, cujo rei, Iobates, estava empenhado na procura de um herói que pudesse derrotá-la.

Eis que, num belo dia, aparece por lá um charmoso herói-galã chamado Belerofonte,  muito recomendado por Preto, genro do rei. 

Na verdade, o que Preto queria mesmo era livrar-se do herói.  Belerofonte e a mulher de Preto, Antéia,  haviam se enrolado  numa história palaciana muito mal contada, cheia de intrigas, na qual se  misturavam  a fúria da mulher desprezada e  os ciúmes do marido traído.  E Preto escreveu uma carta ao sogro pedindo-lhe que se encarregasse de matar Belerofonte.

Para atender ao pedido do genro, Iobates resolveu mandar o herói enfrentar a Quimera.

Belerofonte topou a parada mas, como não era um sujeito completamente idiota, foi antes pedir ajuda aos deuses. Com a intervenção de Minerva,  adonou-se do cavalo alado Pégaso e, montado nele, conseguiu a vitória sobre a Quimera.

Belerofonte acabou se casando com a filha de Iobates, a Princesa Filone,  e poderia  ter vivido feliz para sempre  se.... a soberba não tivesse falado mais alto.

Ofuscado pelos próprios sucessos e aspirando a imortalidade,  Belerofonte  decidiu voar até a morada dos deuses, montado em Pégaso.  Zeus, no entanto, para castigar tamanha arrogância, mandou  uma mosca atormentar o cavalo alado até que este  derrubasse o seu cavaleiro.  Cego e coxo em decorrência da queda,  Belerofonte  acabou seus dias vagando sozinho pelo mundo na mais completa miséria. 

.........

O local onde Belerofonte matou a fera fica na Turquia, à beira do Mediterrâneo, pertinho  de um vilarejo chamado Çirali.   Ali, bem no alto de um morro, o fogo eterno da cabeça da Quimera  ainda brota do chão.  As pessoas costumam subir até lá à noite, quando as chamas são mais vistosas e a escuridão revitaliza a magia. 
   
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A história pode ser bonita  mas o programa é uma grande roubada. Ganhou cinco machadinhas do Guia Michelíndio.


 Esta é a praia de Çirali. Ao fundo, o monte da Quimera. 

 A trilha até o topo é íngreme e difícil. No escuro é pior, apesar do serviço de locação de  lanternas ao pé do morro. 

O fogo eterno: lá em cima existem várias fogueirinhas como essa. 



terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Meke Gölü





Ouvi falar que foi neste lugar que teve origem a lenda do olho turco. Não sei se procede, mas é mesmo possível  que o cenário tenha inspirado o design.   É a cratera de um vulcão e fica perto de Karapinar,  a uns 90 km a leste de Konya.

A área branca ao redor do cone do vulcão é puro sal, mas já foi um lago azul.  É como se costuma ver nas fotos. ["gölü" significa "lago"] 

Esta é do Google Imagens

O nome turco deste amuleto contra o mau-olhado é "nazar boncuk". Quando a energia ruim bate forte, ele se quebra.

sábado, 3 de dezembro de 2011

O Parque Nacional de Göreme

.

Göreme é muito diferente de tudo o que eu já tinha visto antes. Fica na Capadócia, região central da Turquia, e é considerada patrimônio da humanidade desde 1985.

Imagine uma paisagem extra-terrestre.

Imaginou?

Göreme é assim. Até dá para entender porque São Jorge, depois de morto, resolveu morar na lua: para matar saudades da sua terra natal.





Fomos até lá para voar de balão, e posso dizer (quase) sem hesitar que foi o passeio mais bonito que já fiz na vida.  Mais bonito que mergulhar em Noronha.
Acordamos de madrugada, uma van foi nos buscar no hotel. Os balões saem ao amanhecer, aproveitando o friozinho da noite e as correntes de ar produzidas pelo calor do sol nascente.  É um espetáculo - como diriam os antigos - inefável. Um deslumbramento.





Os vôos de balão são a atividade turística mais bem resolvida que vi na Turquia, com infraestrutura muito profissional.

As formações rochosas de origem vulcânica são impressionantes.  Nos primeiros séculos da era cristã começaram a ser escavadas e usadas como moradia, esconderijo e lugares de culto. Muitas cavernas ainda hoje são habitadas, e algumas têm sido  adaptadas como hotéis e pousadas na vila de Goreme.


 Caprichos da Natureza

Energia Yin

E Yang

A charmosa vila de Göreme

Conforto e modernidade nos hotéis-caverna. 

Balões são espetáculo também para quem não voa.

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Ficha Técnica:

1 - Balões: Contratamos o "Deluxe Ballon Tour" da  Göreme Balloons (www.goremeballoons.com). O vôo durou um pouco mais  de uma hora e meia, em um balão com capacidade para 10 pessoas. São 5 de cada lado da cestinha e todo mundo tem lugar na borda. 

2 - Outros passeios imperdíveis em Göreme são o Museu a Céu Aberto e a Cidade Subterrânea. As agências locais organizam vários roteiros.  Vale reservar 3 dias para desfrutar de tudo.


terça-feira, 8 de novembro de 2011

Sanliurfa e Göbekli Tepe



Sanliurfa é uma cidade curiosa, no sudeste da Turquia, numa região conhecida como Curdistão turco. Antigamente se chamava Edesa.  

Consta ter sido a terra natal de Abraão, o que lhe confere importância religiosa para judeus e muçulmanos  e potencial turístico como pólo de peregrinação.  

Dizem também que  Jó teria andado por lá, depois que ficou pobre.

Este é o tanque (ou piscina) de Abraão. Cheio de carpas. 





O menino vende comida para peixes.

A uns 20 km de Sanliurfa fica Göbekli Tepe, que numa tradução livre,  significa algo como o “morro do umbigo”.  

É um sítio arqueológico onde pesquisadores alemães estão desencavando um conjunto de templos religiosos com  mais de 11 mil anos de idade,  os mais antigos monumentos arquitetônicos  já descobertos.
  
Göbleki Tepe é um mistério para os que se dedicam a estudá-lo. As pedras são cortadas com precisão e exibem baixos-relevos de animais, coisas muito sofisticadas para uma época em que,  até onde se sabe, os seres humanos ainda eram nômades, não conheciam a agricultura,  a escrita, o metal, a cerâmica ou a roda. Ou seja, Göbekli Tepe não se encaixa no tempo, está fora de contexto.  

Prato cheio para quem tem espírito de Indiana Jones e se emocionou com as aventuras da arca perdida. 


Parece mesmo um umbigo, não é? Ou um rodamoinho? 


domingo, 4 de setembro de 2011

Próximos Capítulos: Turquia



Coisas para saber sobre a Turquia: 
  • A guerra de Tróia foi lá.  
  • Foi na Turquia que o herói Belerofonte matou a Quimera, montado em Pégaso, o famoso cavalo alado. 
  • Foi lá também que Alexandre Magno cortou o nó górdio.
  • As sete igrejas do apocalipse ficam na Turquia.
  • O monte Ararat, onde a arca de Noé ancorou depois do dilúvio, também. 
  • São Nicolau, o Papai Noel, era turco.
  • São Jorge também. 
  • Tales de Mileto, um dos sete sábios da Grécia, também era turco. Foi ele quem primeiro explicou e previu um eclipse solar.
  • Depois da morte de Jesus Cristo, a Virgem Maria foi morar na Turquia.
  • A primeira moeda do mundo foi cunhada na Turquia.
  • O Orkut foi inventado na Turquia pelo engenheiro Orkut Buyukkokten.

Tem muita coisa por lá para ser vista e aprendida. Vou checar, na volta conto aqui no blog.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Curiosidades croatas para iniciantes


1 - Foram os croatas que inventaram a gravata. Daí o nome da dita cuja.

2 - Dermocosméticos podem ser boas compras. A variedade é boa e o preço também. Um tubinho de Redermic, da La Roche-Posay, me saiu por 213,26 Kunas, o que equivale a R$ 68,00. No Brasil não sei quanto está custando. Parei de perguntar quando chegou aos RS$ 150,00 na Drogasil.

3 - A escrava Isaura já andou por ali. Atualmente passa na TV uma versão do Big Brother muito parecida com a nossa, com confessionário, quarto do líder e acampamento no quintal.

4 - A partir da happy hour, no final da tarde, os bares dos calçadões do centro de Zagreb começam a lotar. Servem todo tipo de bebidas, mas nada para comer. Nem batatas chips, nem amendoim de saquinho, azeitonas, lhufas.

5 - Todo mundo fala inglês. Em algumas cidades, falam italiano. O ensino de idiomas é obrigatório nas escolas, e parece que funciona mesmo.

6 - Uma garrafa de água mineral pode custar mais caro do que um capuccino. Em compensação, a água das torneiras e dos chafarizes públicos é potável (assim disseram, e eu acreditei).

7 - A primeira ministra é uma mulher.


 
8 - A Croácia tem mesmo vocação turística. Juntaram várias sucatas de guerra num terreno situado na entrada da cidade de Karlovac (famosa pela cerveja) e inventaram um “Museu da Guerra” a céu aberto.

[Aqui não posso deixar de traçar um paralelo com Angola, onde também não faltam sucatas de guerra espalhadas por todo canto. Diferentemente do que acontece na Croácia, em Angola a polícia e o exército desestimulam qualquer manifestação de curiosidade turística. Não se pode fotografar, e um amigo quase levou um tiro do sentinela ao tentar subir na carcaça de um blindado em frente ao Forte dos Reis Magos em Luanda.]



9 - Um dos lugares que não pude visitar em Zagreb. Uma pena,  já que eles detêm muito conhecimento acumulado nesse assunto.

sexta-feira, 25 de março de 2011

O tamanho do documento


Da série: Campeonatos mundiais

O mapa foi publicado outro dia no site "Desinformation" e anda sendo replicado por aí. Não descobri nada sobre a metodologia da pesquisa, mas se alguém discordar do resultado e quiser reclamar pode checar as fontes no "Healthmad.com" .
Tudo coisa séria.


O campeão absoluto é o Congo, com gloriosos 17,93 cm, seguido pelo Equador, Colômbia, República Tcheca e Dinamarca.

O Brasil até que não ficou mal na fita, aparece em décimo quarto lugar mundial para orgulho dos tupiniquins, ostentando a média de 16,10 cm, ou 1,22 cm à frente da Argentina.  Afinal, é isso o que interessa, não é meninos?

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A César o que é de César

Da série: Momento Ufanista




Você já ouviu falar em Landell de Moura?

Se já ouviu, parabéns.

Eu confesso a minha ignorância. Só hoje, lendo esse post do Balaio do Kotscho, fiquei sabendo que ele - e não Marconi, como aprendemos na escola - foi o verdadeiro inventor do rádio. Do rádio e de outras coisitas.

Transcrevo abaixo:

Há 150 anos nascia o brasileiro que inventou o rádio

Nesta sexta-feira, 21 de janeiro, o Brasil celebra o sesquicentenário de nascimento do padre-cientista Roberto Landell de Moura, inventor brasileiro do rádio e Pai das Telecomunicações. Uma série de atividades foi programada para este dia, entre elas o lançamento de selo e carimbo alusivos ao tema pelos Correios nas cidades de Porto Alegre, Campinas e Brasília.

Ironia do destino, embora seja um dos maiores gênios dos séculos XIX e XX, por suas invenções e atuação científica, Landell de Moura, gaúcho de Porto Alegre nascido no dia 21 de janeiro de 1861, é ignorado em seu próprio País, onde as crianças continuam aprendendo que o inventor do rádio foi o italiano Guglielmo Marconi.

Com o conhecimento teórico e a inquietude dos que estão à frente de seu tempo, Roberto Landell de Moura transmitiu a voz humana à distância, sem fio, pela primeira vez no mundo. Foi também pioneiro ao projetar aparelhos para a transmissão de imagens (a TV) e textos (o teletipo). Previu que as ondas curtas poderiam aumentar a distância das comunicações e também utilizou-se da luz para enviar mensagens, princípio das fibras ópticas. Tudo está documentado por patentes, manuscritos, noticiário da imprensa no Brasil e no exterior e testemunhos.

As pioneiras transmissões de rádio aconteceram no final do século XIX, ligando o alto de Santana – o Colégio Santana – à emblemática Avenida Paulista, que hoje abriga diversas antenas de emissoras de rádio e de TV.

Ao transmitir a voz, Landell se diferenciou de Marconi. O cientista italiano inventou o telégrafo sem fios, ou seja, a transmissão de sinais em código Morse (conjunto de pontos e traços) e não o rádio tal como o conhecemos.

As experiências do padre Landell não sensibilizaram autoridades e nem patrocinadores. Pior: um grupo de fiéis achou que o padre “falava com o demônio” e destruiu seus aparelhos.

Mesmo tendo patenteado o rádio no Brasil (1901), Landell não obteve reconhecimento. Decidiu, então, viajar para os Estados Unidos, onde conseguiu, em 1904, três cartas patentes. De volta ao Brasil, quis fazer uma demonstração das suas invenções no Rio de Janeiro, mas, por um erro de avaliação, o Governo não lhe deu a oportunidade. Depois, ele seria “forçado” a abandonar as experimentações científicas. Morreu no ostracismo e o Brasil importou tecnologia para entrar na era das radiocomunicações!

Landell de Moura está, agora, já em pleno século XXI, prestes a ver seu nome inscrito no Livro dos Heróis da Pátria, depositado no Panteão Tancredo Neves, graças ao Projeto de Lei do senador Sérgio Zambiasi, que está atualmente em análise na Câmara dos Deputados. Estará, desse modo, ao lado de outros heróis como Tiradentes, Zumbi dos Palmares, Santos Dumont e Oswaldo Cruz.

Também receberá, em fevereiro, o título post-mortem de Cidadão Paulistano (que Marconi recebeu em vida), por iniciativa do vereador Eliseu Gabriel.

Há anos, ele é o patrono dos rádio amadores brasileiros e seu nome está em ruas e praças de várias cidades, em instituições públicas e em livros publicados no Brasil e no Exterior.

O Brasil tem agora a oportunidade de reconhecer a obra científica de Landell e incluir os seus feitos no currículo escolar obrigatório do ensino básico. É por isso que luta o MLM – Movimento Landell de Moura, integrado por voluntários de diferentes áreas, que construiu um site – www.mlm.landelldemoura.qsl.br – para angariar assinaturas em prol desse reconhecimento. Vale registrar que o MLM não tem fins político-partidário, religiosos, financeiros ou de promoção pessoal.




Ah! Em tempo: Antes que você pergunte, não me venha com a história dos irmãos Wright. Foi Santos Dumont quem inventou o avião sim.



segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Banda Larga







Estava aqui no escritório arrumando uma papelada velha enquanto assistia na televisão a NET anunciar uma banda larga de 100 megas.

Achei uma carta da Brasil Telecom, de março de 2002, dizendo o seguinte:
"Prezado Cliente,
A Brasil Telecom tem o prazer de informar que o seu plano de Internet, com capacidade de até 256k para download e até 64 k para upload, ficou ainda melhor.
A partir de agora você tem até 128 kbps para upload sem nenhum custo adicional.
Através deste Plano Rápido (até 256/128 kbps) você poderá mandar seus arquivos, mensagens, fotos e muito mais com o dobro da velocidade: até 128 kbps. (...)"
Me responda: como é que alguém conseguia viver daquele jeito?

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Sobre o budismo, budistas, golpes e politicagens

Este post é só uma tentativa de sistematizar algumas anotações que fiz durante a viagem, nada mais. Sem pretensão, porque é tudo muito complicado. Já acho difícil entender as sutilezas doutrinárias que diferenciam os muitos ramos do cristianismo [que conheço desde criancinha], o que dirá do budismo!

Assim, se alguém quiser corrigir, complementar ou explicar alguma coisa, que fique à vontade. Só não vale confundir, certo?



O budismo iniciou-se na Índia, com o príncipe Sidarta Gautama, por volta do século V a.c. Os seus ensinamentos baseiam-se em quatro nobres verdades:

1 - o sofrimento existe;
2 - a origem do sofrimento é o desejo;
3 - o fim do sofrimento é possível;
4 - o caminho que conduz ao fim do sofrimento compreende oito vertentes:
1 - consciência correta
2 - intenções corretas
3 - palavras corretas
4 - conduta correta
5 - modo de vida correto
6 - esforço correto
7 - atenção correta
8 - meditação correta

Os lugares sagrados do budismo são:

- Lumbini, no Nepal, onde Buda nasceu;

- Budhgaya, na Índia, a 300 km de Varanasi, onde atingiu a iluminação;

- Sarnath, em Varanasi, onde fez a sua primeira pregação e revelou as quatro nobres verdades (estive lá);

- Kusinagar, na Índia, onde faleceu.

Existem várias correntes budistas, cada uma delas com suas subdivisões. As principais correntes são a Theravada, majoritária no sudeste asiático (Laos, Cambodja, Vietnam, Mianmar, Tailândia, etc) e a Mahaiana.

O Budismo Tibetano pertence à corrente Mahaiana, e recebeu influências do hinduísmo e do tantrismo. Também é chamado de Lamaísmo, porque dá uma ênfase muito forte à relação mestre/discípulo. Compreende quatro escolas diferentes:

1 - Nyingmapá (chapéu vermelho)

2 - Kargyupá (chapéu vermelho ou preto)

3 - Sakyapá (chapéu vermelho)

4 - Gelugpá (chapéu amarelo)

A escola Kargyupá é a predominante no Butão. O templo mais importante é o monastério Rumtek, no Siquim. Seu líder é chamado Karmapá. Por alguma razão que não compreendi, o Karmapá foi banido de Rumtek pelo governo indiano e proibido de retornar ao Siquim. Li em algum lugar que o patrimônio do monastério é bastante respeitável.

Existem duas pessoas atualmente entronizadas com o título de 17º Karmapá: Ogyen Trinley Dorje e Trinley Thaye Dorje. A questão é controvertida. Ogyen Trinley Dorge recebeu o reconhecimento do Dalai Lama, está exilado na Índia (mas não pode ir ao Siquim) e - segundo consta - está sendo preparado para sucedê-lo como líder máximo do budismo tibetano. Mas não vai herdar o título.

A escola Gelugpá é a escola liderada pelo Dalai Lama. Tenzing Gyatso é o 14º Dalai Lama, ou a 14ª encarnação do Buda da Compaixão, líder máximo político e religioso do Tibete, exilado em Dharamsala, na Índia, desde 1959.

O número dois da hierarquia budista na escola Gelugpá é o Panchen Lama, a segunda autoridade religiosa do Tibete, sem funções políticas. Quando o 14º Dalai Lama teve que abandonar o Tibete, o 10º Panchen Lama caiu nas mãos dos invasores chineses que tentaram cooptá-lo como colaborador do regime, sem sucesso. Morreu em 1989, de causas não muito bem explicadas.

O sucessor da linhagem, ou seja, a reencarnação do 10º Panchen Lama, reconhecida pelo Dalai Lama, chama-se (ou chamava-se) Gendum Choekyi Nuyma. Foi raptado em 1995 pelos chineses, aos seis anos de idade, e nunca mais foi visto. É considerado prisioneiro político.

Em seu lugar, o governo chinês escolheu outro sucessor para o Panchen Lama, que foi entronizado como o 11º Panchen Lama. Chama-se Bainqen Erdini Qoigyijabu e está exercendo publicamente suas funções. Outro dia foi visitar as vitimas do terremoto que aconteceu no Tibete quando eu estava lá (a 1.000 km de distância, felizmente).

A impressão que me ficou é que os chineses querem transformar o 11º Panchen Lama em autoridade política no Tibete, para suceder o Dalai Lama, mesmo que a tradição budista não respalde a pretensão. Hoje, a liderança do Dalai Lama é incontroversa. Quando ele morrer... vai ser briga de foice no escuro.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

No Butão

O mundo gira, a lusitana roda e o tempo não pára. Na próxima segunda-feira embarco para mais uma viagem e aqui no blog só agora cheguei ao Butão. A defasagem está grande, com tendência a piorar.

Para adiantar o expediente, vou aproveitar e reciclar a narrativa que mandei para o Rede Furada, blog nota 10 baseado em Santo André - Bahia, a pedido da sua editora-chefe, Olímpia, minha amiga, ex-vizinha e colega de trabalho, ora de férias em Nova Iorque, a capital cultural do ocidente .



O Butão é um país curioso, que começou a receber turistas há pouco tempo. A primeira coisa que me chamou a atenção é haver um portal de entrada, quase um arco do triunfo, todo trabalhado em madeira, cuidadosamente pintado. Eu estava dentro do ônibus, não consegui uma boa foto. Existem apenas três pontos de fronteira terrestre, todos com a Índia. Este é o de Phuntsoling.


A cidade da foto acima é Thimphu, a capital. Fica em um vale, como todas as demais cidades que visitei. É só o que se vê: vales e picos altíssimos. Thimpu está a 2.300 m de altitude e tem uns 80 mil habitantes. É capital desde 1962, quando foi aberta a primeira rodovia do país, ligando o Butão à Índia.

Para se ter uma idéia de como o Butão era fechado (*), até meados do século 20 não existia uma moeda nacional, e o comércio era todo feito à base de trocas. O ngultrum só foi criado por volta de 1940/50.


O Butão é o último reino budista do mundo. A dinastia atual começou no início do século XX, e está na 5ª gestão. O 3º rei foi considerado o pai do Butão moderno. Aboliu o sistema de castas e o feudalismo rural, promovendo uma reforma agrária.

O 4º rei idealizou o conceito e a medida de Felicidade Interna Bruta - FIB, para direcionar as ações de governo. Foi uma grande sacada que mereceu reconhecimento internacional em círculos políticos e acadêmicos.

Uma das ações de governo orientadas pelo FIB foi a introdução da monarquia constitucionalista em 2008. Por iniciativa do próprio rei (o 4º), o Butão prepara-se para migrar de um regime totalitário para um regime democrático, sem traumas. A constituição butanesa instituiu uma assembléia nacional e criou a figura do primeiro-ministro como chefe de governo. Estabeleceu também a idade limite de 65 anos para o rei, que deve obrigatoriamente renunciar em favor de seu herdeiro. Se o herdeiro revelar-se um mau governante, poderá ser substituído por outro membro da família real, eleito pela assembléia.

O 4º rei renunciou em favor de seu filho aos 55 anos de idade. O rei atual (o 5º ) estudou em Oxford, tem 31 anos e ainda é solteiro. [Atenção, meninas! A poligamia é admitida, mas precisa ser consensual.]


Isso que você está vendo é mesmo o que você está pensando. As construções obedecem a um padrão tradicional, são cheias de bordadinhos, e trabalhos em madeira. O código de obras é rigoroso e não admite modernices exageradas. Pinturas nas casas e muros são freqüentes, com muitos falos pendurados nos telhados, balançando ao vento...



O animal é o Takim, só existe por lá. Na verdade, é o único animal do Jardim Zoológico de Thimpu. Em 1991, atendendo a uma reivindicação popular, o rei mandou abrir as portas das jaulas e libertar todos os bichos. Manter animais em cativeiro envergonhava os budistas butaneses. Só ficou o Takim, porque precisava de proteção contra seus muitos predadores.



Este é o traje nacional masculino, chamado Ghogo (pelo menos foi isso o que anotei). É uma espécie de roupão. As dobras das mangas são usadas como bolsos e quase todos os homens usam.



A foto acima é do Punaka Dzong, um edifício lindo, de 1673, onde funcionam um mosteiro budista e a administração regional. Fica na junção de dois rios, um rio macho, mais rápido (o da esquerda) e um rio fêmea, tranquilo (à direita). Todos precisam se trajar adequadamente para entrar no Punaka Dzong. Vale dizer, nada de turistas de chinelo, shorts, bermudas ou camisetas de alcinha. Os homens butaneses precisam usar uma espécie de echarpe branca, equivalente à nossa gravata.


O único aeroporto do país fica na cidade de Paro, que tem 44 mil habitantes. Foi construído em 1983 e apenas a Druk Airlines, a companhia nacional,  tem autorização para operar ali. A Druk possui atualmente uma frota de dois aviões (quase novos) e voa para Calcutá, Nova Delhi e Katmandu. A rota para Katmandu passa ao lado do monte Everest.



O Butão é o segundo país que conheço que apenas recentemente, e com um atraso considerável, iniciou um processo de abertura, modernização e inserção internacional. O primeiro foi Angola.

Apesar das diferenças históricas e culturais estratosféricas entre os dois países, para mim é muito difícil deixar de fazer comparações. O Butão não possui os recursos naturais que Angola tem. Sua economia é limitadíssima, baseia-se na venda de energia elétrica para a Índia. Sua população também é pequena, embora igualmente pobre.

O que faz diferença, até onde eu consigo ver, é 1/ a honestidade de propósitos e a intenção de fazer o que seja melhor para o benefício coletivo; 2/ o desejo e a humildade de aprender tudo o que for possível, de aproveitar os erros, acertos e experiências de outros países; e 3/ o espírito de solidariedade e de fraternidade que fazem o SER mais importante do que o TER.

Perguntei a uma garçonete de hotel se ela era feliz e qual seria a medida de sua felicidade, numa escala de 0 a 10. Para meu espanto, ela não se espantou com a pergunta. Deu-se nota 5. Perguntei então o que a faria mais feliz do que 5. Ela disse que morava no hotel, um pouco afastado da cidade, e lá passava a semana inteira. Gostaria de morar mais perto de casa, de poder estar com a família mais freqüentemente. Isso aumentaria sua felicidade.

E você? O que faria você mais feliz? Ganhar a mega-sena?

Eu adorei o Butão, acho que estão no caminho certo.

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(*) Sem trocadilhos, tá?