quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A Invasão Hondurenha

O jornalista Reinaldo Azevedo publicou em seu blog uma espécie de passo-a-passo da crise hondurenha, bem elucidativo da situação. Faço aqui um resumo/adaptação, incorporando outras informações publicadas nas revistas da semana. Quem quiser pode ir à fonte buscar o original. [clique aqui]

Antecedentes:
 1 - A Constituição de Honduras foi democraticamente instituída.

2 - O artigo 239 da Constituição de Honduras estabelece:
“O cidadão que tenha desempenhado a titularidade do Poder Executivo não poderá ser presidente ou indicado. Quem transgredir essa disposição ou propuser a sua reforma, assim como aqueles que o apoiarem direta ou indiretamente, perderão imediatamente seus respectivos cargos e ficarão inabilitados por dez anos para o exercício de qualquer função pública”.
No original, está escrito “cesarán de inmediato en el desempeño de sus respectivos cargos”. Em espanhol, “de imediato” quer dizer “de imediato”.

3 - Zelaya convocou uma consulta popular propondo uma reforma constitucional, com vistas à sua reeleição.

4 - Os que se opuseram às pretensões de Zelaya, incluindo membros de seu próprio partido, recorreram à justiça, argüindo que a tal consulta estaria a violar o dito artigo 239.

5 - O artigo 184 da Constituição Hondurenha diz:
"Las Leyes podrán ser declaradas inconstitucionales por razón de forma o de contenido. A la Corte Suprema de Justicia le compete el conocimiento y la resolución originaria y exclusiva en la materia y deberá pronunciarse con los requisitos de las sentencias definitivas."
6 - A Corte Suprema de Justiça considerou a consulta popular inconstitucional. Para reforçar a posição, o Congresso hondurenho aprovou uma lei especial proibindo a realização de consultas populares seis meses antes ou seis meses depois das eleições gerais.

7 - Manuel Zelaya desconsiderou a decisão da Justiça e deu ordens ao exército para que seguisse adiante com o plebiscito. O general Romeo Vásquez, comandante militar do país, se recusou a cumprir a ordem e foi destituído.

8 - A Corte Suprema de Justiça considerou ilegal a destituição do general e determinou sua volta ao posto.

9 - Zelaya recusou-se a acatar a decisão da Corte Suprema e, com o apoio de seus correligionários, tentou prosseguir com a consulta popular, ao arrepio do Congresso, da Justiça e das Forças Armadas.

10 - No dia 28 de julho, véspera do dia previsto para o plebiscito, às 5h30 da manhã, Zelaya foi embarcado pelos militares num vôo para a Costa Rica. No mesmo dia, Roberto Micheletti, presidente do Congresso, assumiu a Presidência.

11 - O artigo 272 da Constituição hondurenha estabelece que as forças armadas de Honduras são garantidoras da ordem constitucional caso ela seja ameaçada:
"Las Fuerzas Armadas de Honduras, son una Institución Nacional de carácter permanente, esencialmente profesional, apolítica, obediente y no deliberante. Se constituyen para defender la integridad territorial y la soberanía de la República, mantener la paz, el orden público y el imperio de la Constitución, los principios de libre sufragio y la alternabilidad en el ejercicio de la Presidencia de la República."
12 - A Corte Suprema entendeu que a deposição de Zelaya teria sido automática. Seguindo ainda outros dispositivos constitucionais, caberia ao presidente do Congresso Roberto Micheletti assumir provisoriamente a Presidência da República.

13 - Eleições gerais foram marcadas para o dia 29 de novembro.

14 - No dia 21 de setembro Zelaya voltou ao país clandestinamente, após duas tentativas frustradas pelos militares. Contou com apoio e suporte logístico oferecido por Hugo Chavez e abrigou-se na embaixada do Brasil. Uma vez instalado, transformou a embaixada em seu escritório particular. Saqueou a despensa, desautorizou os diplomatas brasileiros, e passou a dar entrevistas, fazer provocações, incitar a população para a guerra civil, provocar o caos.

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De lá prá cá, as coisas vão cada vez pior, com todo mundo metendo os pés pelas mãos. Nossas autoridades apóiam, aplaudem e ainda arrotam bravatas. Nossa burocracia mete o rabo entre as pernas, engole os sapos e faz de conta que está tudo certo. Hugo Chavez se diverte com o colapso da diplomacia brasileira que não se dá ao respeito.

Quem puder que me responda, quais seriam os superiores e ultra-secretos interesses nacionais a serem defendidos com a estratégia da subserviência a um psicopata bolivariano que há muito procura uma guerrinha nas vizinhanças para se divertir.

Que despejem o Zelaya na porta da embaixada da Venezuela.

Como brasileira, estou indignada, humilhada e envergonhada por tanta irresponsabilidade, tanta incompetência, tanta estupidez.



sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Casa da Mãe Joana


Depois dos portugueses, franceses, ingleses e holandeses invadirem o Brasil, chegou a vez dos hondurenhos.
Num belo dia, 80 pessoas se materializam na porta da embaixada brasileira, entram sem convite, instalam-se, dormem no sofá, põem os pés em cima da mesa, derramam café no tapete  e deixam o mundo inteiro olhando com cara de aé-é.

A vez dos hondurenhos e dos venezuelanos, já que, a ser verdadadeira a versão oficial [*], é o Hugo Chavez quem hoje pauta a política externa brasileira. Ele manda, cria um factotum bolivariano, e o Itamaraty põe o rabo entre as pernas e obedece direitinho.
É de lascar.

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[*] - A versão oficial continua sendo aquela mesma: "eu não sabia de nada".
E se soubesse,  também não mudava nada. 

 Hugo Chavez: ele deve estar morrendo  de rir

sábado, 19 de setembro de 2009

Laudo


"Severas alterações degenerativas na articulação coxofemural direita, com redução do espaço articular, afilamentos das cartilagens articulares, alterações fibrocísticas subcondriais e osteofitos em colar na cabeça femoral."
Acho que vou mesmo entrar na faca. Ai, ai.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Onde está o dinheiro?


O gato comeu, o gato comeu.
E ninguém viu.
O gato sumiu, o gato sumiu.
E o seu paradeiro
é no estrangeiro
onde está o dinheiro.

Composição: Paulo Barbosa, Francisco Matoso e José Maria de Abreu
Canta: Gal Costa
Para ler a letra e ouvir a melodia clique aqui
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Li sobre esse assunto há uns meses atrás "Nos Cus de Judas", mas não percebi direito a história. Hoje recebi por e-mail uma narrativa mais explicadinha, do Novo Jornal. Saiu também no Angonotícias.


Angola comprou acções do Banif e nunca as viu

Polémica. Confusão. São dois dos adjectivos que melhor se enquadram numa história que tem poucos fios condutores. E muitas esquinas e becos escuros. Tudo se resume assim: o Estado Angolano, em 1994, destinou 150 milhões de dólares para adquirir uma participação no Banco Internacional de Funchal (Banif), de Portugal. Hoje, 11 de Setembro de 2009, é certo que Angola não é proprietária de uma única acção do Banif.
O enigma que se impõe é simples, mas de difícil resolução: onde estão os tais 150 milhões de dólares? Se o Estado não tem nenhuma participação mas o dinheiro “saiu”, quem se beneficiou? Durante a semana a Procuradoria–Geral da República, dirigida pelo polémico Procurador, General João Maria de Sousa, confirmou ter entregue à “justiça portuguesa uma queixa-crime contra o advogado Francisco Maria Guerreiro da Cruz Martins e outros intervenientes”, para já não identificados.
Segundo o PGR, Angola sente-se “lesada nos seus interesses patrimoniais em mais de 150 milhões de usd”.
Vários órgãos de comunicação social portuguesa têm destacado este assunto nas primeiras páginas: primeiro foi o Diário de Noticias, em Junho, tal como o Novo Jornal deu conta, depois o Expresso em Agosto e agora foi a vez do diário “i”, que fez mesmo manchete na terça-feira, 8/09.
Em declarações ao Semanário Expresso, Francisco da Cruz Martins afirmou não crer “que seja alvo correcto de semelhante acusação. Que outros tenham praticado tais actos, posso admitir”, disse.
E de facto há “outros” nomes envolvidos neste caso: os empresários António Figueiredo e Eduardo Capelo Morais, portugueses que chegaram na deter avultadas participações na instituição bancária.
No entanto, não é crível que apenas 3 empresários estejam envolvidos nesta mega-burla. Camilo Lourenço, analista, economista e Jornalista luso, dizia na televisão que “se especulava do envolvimento de altas figuras, portuguesas e angolanas”. E completava: “Segundo as minhas fontes, o valor em causa pode até ser o tripulo de 150 milhões de dólares”.

Curvas e contra curvas


O triplo era, mais ou menos, o valor avançado pelo Diário de Notícias português, em Junho. 360 Milhões de dólares. Só que a notícia falava numa queixa do Banco Nacional de Angola (BNA). Agora percebe-se que pouco terá a ver com esta estrada sinuosa. Na altura, contactada pelo Novo Jornal, Amélia Borgia, porta-voz do BNA, afirmou peremptoriamente que o regulador “não apresentou queixa nenhuma em Portugal”e que “desconhecia por completo o assunto em causa”.
Nos últimos dias foi também tornado público parte do caminho que os tais 150 milhões de dólares tiveram. Durante a investigação ficou claro que a compra das acções não era para ser feita em bolsa. Por isso, a partir de Outubro de 1994, segundo o Semanário Expresso, terão sido feitas várias operações, “com compras de sociedades offshore que detinham acções do Banif, através de outras sociedades offshore”. O dinheiro ai chegando de Angola em várias parcelas, à medida que surgiam as oportunidades de investimento.
O governo angolano terá então estranhado os preços a que as transacções terão sido feitas, acima do valor a que esteva a ser negociada em bolsa. Por exemplo: um lote de 2 milhões de acções terá sido negociada a E15 cada, entre o final de 1994 e o único de 1995. O problema é que, em 1994, a cotação variou entre os E5,76 (valor de fecho mais baixo) e os E7,68 (o valor de fecho mais elevado). “No ano seguinte, variou entre E6,48 e E7,58”, escreveu o Expresso.
O objectivo inicial era comprar 8,48 milhões de acções, correspondente a 49 por cento, o primeiro objectivo.
Angola acordou para este imbróglio quando recebeu uma factura de honorários “por serviços prestados”, endossada por Francisco da Cruz Martins, na ordem dos 19,5 milhões de euros. Mas, se Martins tinha sido “contratado” (sem contrato assinado, porque o acordo terá sido sempre verbal) para comprar 49 por cento do Banif em nome do Estado, como pode cobrar honorários por uma por uma participação que não existe? “Quando presto um serviço reclamo os correspondentes honorários. Tal como qualquer profissional cobra pelos serviços que presta o que entende ser justo, nesta caso, como não confirmo nem desminto qualquer relação com o assistente no processo mencionado, seria incoerente comentar esta questão”, justifica o advogado, em declarações ao Expresso, em Agosto.
14 Sep 2009
Fonte:Novo Jornal

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Era uma vez uma onça ...

... que saiu de casa para passear. Estava meio distraída, atravessou a rua sem olhar e foi atropelada.
Quando?
Hoje de manhãzinha.
Onde?
Em  São Paulo!!!.

A operação salvamento foi bem sucedida, mas causou um engarrafamento de 9 quilômetros na autoestrada.  A onça (uma sussuarana, em risco de extinção) saiu da aventura um tanto machucada, mas passa bem.



A fauna paulista está se diversificando.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Datas

Onde você estava no dia 11 de setembro de 2001?

Eu acordei, liguei a televisão e fiquei olhando a Torre 1 pegar fogo, sem entender nada. Eram só imagens, sem legenda, sem explicação.
Vi o segundo avião passar por trás da Torre 2 e desaparecer numa nuvem de fumaça. Eram 10h03 em Brasília. Daí prá frente não precisei mais de legendas.

O idioma que nos separa



Outro dia li no Aerograma o seguinte comentário a um post:
"AHAHA. Acho que se fizesse isso ao meu puto estava tramado. Conforme o humor ao acordar, ou nem se dá aos conhecidos, ou dá bola a quem nunca viu na vida…apetites…
Um abraço."
É duro ser estrangeiro no seu próprio idioma.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Bastidores (do grande negócio)

Luis Fernando Veríssimo (mesmo!)
Especula-se que a vinda do Sarkozy ao Brasil foi precedida de uma intensa negociação diplomática entre Brasil e França em torno de uma única dúvida: se a Carla Bruni viria ou não viria junto.

Quando o governo francês anunciou que ela definitivamente não viria, teria havido uma reunião de emergência no Planalto, com a participação do Itamaraty e dos ministros da Defesa e da Fazenda, quando ficara decidido que o Brasil concordaria em comprar helicópteros franceses, com a condição de que a Carla Bruni acompanhasse o marido.

O Sarkozy teria dito que infelizmente ela tinha um compromisso previamente marcado e não poderia vir. O governo brasileiro insistira: compraria, além dos helicópteros, 18 aviões, se a Carla Bruni também viesse.

A chancelaria francesa se desculpara: a senhora Sarkozy, infelizmente, não poderia atender ao convite. O Brasil então teria feito outra proposta: os helicópteros e mais 36 aviões.

A própria Carla Bruni escrevera um bilhete muito gentil ao Lula, agradecendo o carinho dos brasileiros, etc., mas reafirmando que, infelizmente, não poderia vir.

Nova reunião de emergência e nova oferta brasileira: os helicópteros, os 36 aviões e mais dois submarinos. Nova resposta francesa: infelizmente...

Então Lula autorizara a proposta final. O Brasil compraria os helicópteros, os 36 aviões e TRÊS submarinos, sendo um nuclear, e a França ainda poderia levar o que quisesse do pré-sal, com desconto, se a Carla Bruni viesse junto.

Aliás, se viesse a Carla Bruni, o Sarkozy nem precisava vir. O negócio estava fechado.

Os franceses aceitaram. Por isso grande foi a decepção quando a porta do avião se abriu e o Sarkozy apareceu sozinho. Depois ele explicou por que, à última hora, a mulher não pudera vir:

— Enxaqueca.

Mas aí ficaria chato o Brasil retirar sua oferta.

Claro que esta é apenas uma versão do que teria havido nos bastidores do grande negócio. Outra, menos verossímil, é que o Sarkozy é apenas um vendedor com muita sorte.


UM DIA
(Da série "Poesia numa hora destas?!")
Não esquente, não esquente:
um dia ainda vamos rir de tudo isto
histericamente.

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Do Blog do Noblat

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Avaliação de aprendizagem




A Mari Ceratti, do Me convenceram de que eu precisava disso, teve a feliz idéia de montar um passo-a-passo para orientar a plebe ignara a agendar a publicação de um post.

Há muito tempo eu queria aprender isso, e já tinha tentado várias vezes, em vão.

Parece tão fácil, vou programar este post para sair no dia 9 de setembro, às 9 horas e 9 minutos  da manhã.

Vamos ver se aprendi ou se fico em recuperação.


terça-feira, 8 de setembro de 2009

O Passado e o Futuro

Do folclore Quimbundo



Dois homens caminhavam por uma estrada quando encontraram um vendedor de vinho de palma. Os viajantes pediram-lhe vinho e o homem prometeu satisfazê-los, mas com uma condição:

- Terão de me dizer os vossos nomes.

Um deles falou:
- Chamo-me De onde Venho.

E o outro:
- Para Onde Vou.

O homem aplaudiu o primeiro nome e reprovou o segundo, negando a Para Onde Vou o vinho de palma.
Começou uma discussão, e dali saíram à procura do juiz. Este ditou logo a sentença:

- O vendedor de vinho de palma perdeu. Para Onde Vou é que tem razão, porque De Onde Venho já nada se pode obter e, pelo contrário, o que se puder encontrar está Para onde vou.


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Extraído do livro
Contos Populares de Angola - Folclore Quimbundo
Organizados por J. Viale Moutinho
São Paulo, Landy Editora, 2006

O Leão é Forte como a Amizade

Conto do folclore quimbundo


Dois amigos costumavam encontrar-se todos os dias. Numa das conversas, um deles comentou:
- Os leões estão a aparecer nas redondezas. Tem cuidado com a tua casa, para evitares um desgosto.
- O leão não poderá entrar. Tenho espingarda e lança.
- Enganas-te, porque tu não podes lutar com o leão.
- Tenho a certeza que posso.
Ambos riram e continuaram a conversar até que por fim se separaram.

Passou-se um mês quando o rapaz que tinha avisado o amigo arranjou um meio de se transformar em leão e resolveu atacar o camarada, rugindo ferozmente.
Arranhou-lhe a porta de casa e encontrou o amigo a dormir. Levantou-o, bateu-lhe e desfez aquilo que encontrou.
Deixando o amigo em má situação, retirou-se e voltou à forma de homem.

No outro dia, foi visitar o amigo que atacara, e este disse-lhe:
- Pobre de mim! O leão veio aqui esta noite e destruiu tudo!
- Porque não fizeste fogo ou não lhe meteste a lança?
- Meu amigo, o leão é forte como a amizade.


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Extraído do livro
Contos Populares de Angola - Folclore Quimbundo
Organizados por J. Viale Moutinho
São Paulo, Landy Editora, 2006

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O Rapaz e o Crânio

Um conto do folclore quimbundo



Um rapaz foi fazer uma viagem e no caminho encontrou uma cabeça humana.
As pessoas costumavam passar por ela sem fazer caso, mas o rapaz não procedeu assim.
Aproximou-se, bateu-lhe com um pau e disse:
- Deves a morte à tua estupidez.

O crânio respondeu:
- A estupidez me matou, a tua esperteza também o matará.

O rapaz aterrorizou-se tanto que, em vez de prosseguir, voltou para casa.
Quando chegou, contou o que se passara. Ninguém acreditou:
- Estás a mentir! Já temos passado pelo mesmo lugar sem nada ouvirmos dessa tal cabeça.
- Como é que ela te falou?
- Então vocês não acreditam? Vamos lá e se quando eu bater na bater na tal cabeça, ela não falar, cortai a minha.

Todos partiram e, no sítio referido, o rapaz bateu na cabeça e repetiu:
- A estupidez é que te causou a morte.
Ninguém respondeu.
As palavras são pronunciadas outra vez e como o silêncio continuasse os companheiros gritaram:
- Mentiste! - e degolaram-no.
Imediatamente o crânio falou:
- A estupidez fez-me morrer e a esperteza matou-te.

O povo compreendeu então a injustiça que cometera, mas é que espertos e estúpidos são todos iguais.

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Extraído do livro
Contos Populares de Angola - Folclore Quimbundo
Organizados por J. Viale Moutinho
São Paulo, Landy Editora, 2006

domingo, 6 de setembro de 2009

A força da mulher

Elas são as zungueiras. Vão buscar nos armazéns atacadistas mercadorias para vender pelas ruas de Luanda. É uma profissão. A alternativa é a fome.

São apenas meninas, mas já mostram sua força.


quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Livro livre



Se é que a leitura é mesmo alimento para a alma, eu poderia ser classificada como uma leitora onívora (*). Leio qualquer coisa. O que vou buscar nas livrarias e tudo o mais que me cai nas mãos, incluindo jornais, revistas e internet. Leio até bula de remédio. E gosto.

Meu pai gostava de ler, minha mãe gostava de ler, tios, filhos e agregados gostavam de ler. As pessoas que ainda estão por perto continuam gostando. As que já se foram deixaram livros como herança. Como resultado disso tudo, moro numa casa cheia de livros. Ou morava, melhor dizendo. Tenho estantes de livros grandes nos três quartos da minha casa e na sala de televisão. Foram lotando, lotando, até que as coisas chegaram a um ponto em que não havia espaço para mais nenhum.

Eram eles, ou eu.

Fui obrigada a exercitar o desapego e começar a me desfazer dos livros. Aos poucos, porque doía muito. Esse “aos poucos” , aviso, deve ser entendido com algumas reservas. Funcionava assim: depois de semanas de meditação, oração e jejum, chegava o dia em que eu acordava com o espírito desprendido. Aproveitava para, primeiro, separar os livros que podiam ser doados. Depois, para procurar um destino digno para eles.
E não foi fácil. Procurei por sebos, bibliotecas públicas, escolas. Cansei de ouvir coisas do tipo:

- Doação de livros? Tá. Traga aqui e a gente vê se tem alguma coisa que nos interesse.

Fácil, se são dez ou vinte livros. Complica bastante, se são duzentos ou trezentos. E o peso prá carregar? E o peso no coração? Como é que alguém sai por aí carregando duzentos livros de estimação num caixote, para ver se alguém quer adotar?

Custou, mas foram embora. Distribuídos em lotes de duzentos ou trezentos de cada vez, para sebos, bibliotecas universitárias, bibliotecas comunitárias, presídios, rifas beneficentes, prêmios de concursos culturais, ONGs e sei lá mais o quê. Amigos levaram livros, amigos dos amigos levaram livros, filhos e sobrinhos dos amigos também. Nobres causas, todas.

Hoje, eu e os livros nos entendemos melhor sobre a divisão dos espaços na casa. Sem estresse. Existem as estantes temáticas (livros de consulta), as estantes de estimação e as estantes do acervo temporário. Essas, volta e meia são esvaziadas para permitir renovação.
Esta semana liberei espaço nas prateleiras do acervo temporário. Alguns livros foram para o sebo, outros foram destinados a dois projetos muito interessantes:

1 - Projeto Parada Cultural:

É uma iniciativa do Açougue Cultural T-Bone. Livros são colocados nos pontos de ônibus de Brasília, à disposição dos usuários dos transportes coletivos . As bibliotecas estão instaladas nas próprias paradas de ônibus e emprestam livros a qualquer cidadão sem exigir documentos nem preenchimento de fichas ou cadastros. Os livros estão acondicionados em armários-estante especialmente projetados, em prateleiras abertas. É olhar, pegar e ler. E devolver depois. O projeto já tem mais de um ano de existência, 35 bibliotecas e mais de mil empréstimos por dia.

2 - Livro livre:

Funciona assim: Você lê um livro, gosta (ou não) e o liberta em algum lugar público, como um bar ou banco de praça, para que possa ser encontrado, lido e apreciado por outra pessoa. A idéia é que os livros não possuem donos e constituem patrimônio cultural coletivo. Por isso, devem ser continuamente transferidos para as mãos de novos leitores em vez de guardados em estantes a acumular poeira, relegados à condição de objetos decorativos ou itens de coleção. Alguns sites na internet (esse é um e esse é outro) se dedicam a divulgar o projeto e a cadastrar os livros liberados, para possibilitar o rastreamento futuro. Igualzinho àquelas placas que se colocam nas tartarugas marinhas e nas aves migratórias.

Fica a idéia e o convite, para quem gostar e quiser aderir.


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(*) É mais elegante dizer "onívora" do que "promíscua", concorda? Ou não?


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AGRADECIMENTOS:
Nossos sinceros agradecimentos à C., que ajudou a separar os livros, subiu na escada para alcançar as prateleiras mais altas, telefonou para o sebo, carregou o lote destinado ao Açougue Cultural e se lembrou do projeto do Livro Livre.
Sem ela, nada disso teria sido possível.