segunda-feira, 29 de junho de 2009

Aviso aos navegantes



Transcrevo e-mail do tipo "passe-adiante" recebido hoje, que está a circular entre os expatriados em Angola. Não chequei a sua veracidade:

“Prezados,
Tenham muito cuidado enquanto estiverem em Angola, O departamento de Imigração (DEFA/SME) há dias vem fazendo operações em vários lugares públicos como restaurantes, áreas comerciais, armazéns e até mesmo locais residenciais.
Ouvi falar sobre operações constantes no Condomínio Mulemba e até em algumas casas residenciais na Maianga. No sábado passado a DEFA fez uma operação no restaurante ALDAR.

Relato aqui o que aconteceu naquele dia. Minha esposa entrou do restaurante ALDAR para comprar pão e, como não encontrei lugar para estacionar fiquei dando voltas até receber uma chamada de minha esposa. Ao atender à chamada, ouvi apenas barulho e gente gritando ‘documento, documento’. Apressei-me de volta ao ALDAR quando vi 2 viaturas da DEFA do lado de fora do estabelecimento, e os agentes da DEFA com polícia armada no interior do restaurante, não permitindo ninguém a sair. Vi minha esposa sentada perto da porta chorando. Adentrei o restaurante e me deparei com 10 agentes da DEFA e policiais, alguns fardados, outros não, exibindo seus crachás em volta do pescoço. Um deles pediu meu passaporte e mostrei-lhe a cópia autenticada do meu passaporte e do da minha esposa. Ele me mandou sentar junto à minha esposa.

Perguntei a ela o que se passava. Ela disse que depois de pagar pelo pão, dois tipos armados a empurraram pelas costas de volta ao caixa e começaram a pedir ‘documento documento’. Ela tentou me telefonar, mas um deles a empurrou dizendo: ‘você está presa, não telefone”. Então mandaram-na sentar perto da porta. Ela pressionou o último número discado, que era o meu, de maneira que ninguém pudesse ver, e o deixou ligado para que eu ouvisse. Dali há pouco, mandaram todos os funcionários do estabelecimento, inclusive o proprietário, para dentro da viatura da DEFA. Os funcionários do Aldar estavam com seus passaportes em casa, logo ali do outro lado da rua e mesmo assim foram impedidos de buscar os documentos. Então pediram à minha esposa que entrasse no carro, mas contestei dizendo que ela não poderia ir pois não havia nenhuma oficial do sexo feminino naquela equipe de operação. Imediatamente sem nada dizer, o agente da DEFA nos empurrou para dentro da viatura. Ao todo prenderam 10 funcionários do Aldar e 10 clientes (4 portugueses, 2 italianos, 2 indianos, 2 espanhóis) e levaram-nos ao escritório da DEFA. Depois veio uma pessoa dizendo que estávamos liberados para usar o telefone para providenciar a vinda de nossos passaportes originais.
Dali a pouco mais 20 estrangeiros chegaram ao local, inclusive 2 empresários indianos (proprietários de 40 estabelecimentos comerciais na cidade). Alguns haviam sido pegos no Aldar e alguns em suas residências localizadas naquela mesma rua. Com a ajuda de um amigo indiano, consegui receber nossos passaportes.
Após verificá-los, o oficial de DEFA cobrou-nos 24,420Kz por não estarmos de posse dos documentos originais no ato da operação. Ele reteve nossos passaportes originais e mandou-nos pagar a multa até o dia 02 de Julho no banco junto à DEFA e só assim, poderíamos receber nossos passaportes de volta.

Tudo isso começou por volta das 11 da manhã no restaurante só terminou às 5:00 da tarde na delegacia. Toda a operação foi repleta de assédio físico e moral. Isso tudo inclusive afetou muito a minha esposa emocionalmente que até agora está tomada pelo medo.
Peço a todos vocês que tenham cuidado ao circular por Luanda e que tenham sempre consigo seus passaportes originais. A cópia autenticada em cartório de nada serve quando há este tipo inspeção.”

O e-mail que recebi contém ainda a versão original da mensagem em inglês, o nome do suposto autor e um telefone de contato, detalhes que omito.

domingo, 28 de junho de 2009

Tradições angolanas – Mitos e verdades sobre a água - 2


Lagoa do Feitiço
Foto: http://luisfernandoangola.blogspot.com


II – Lagoa do Feitiço no Uíge

Ainda no leste de Angola, entre os Tucôkwe da comunidade rural, a tradição proíbe as crianças e adolescentes de ir muito cedo (às manhãs) ou muito tarde ao rio (lwiji) e à lagoa (citende, lê-se tchitende), sobretudo se estiver a nevar. A razão dessa proibição é que “Samutambyeka”, uma figura mitológica monstruosa, mais alta do que os eucaliptos, temível pela população, bebe muita água nesses períodos e evita a presença de pessoas antes de ficar saciado. Enquanto bebe, sopra a partir da boca e das narinas um jacto de água que se transforma em nevoeiro.

O arco-íris (Cezangombe, lê-se tchezangombe) que normalmente aparece às tardes e quando está a chover, é utilizado para fazer entender às crianças e aos adolescentes a presença, nessa altura, do também chamado “Espírito perdido”, perto dos rios e lagoas.

“Samutambyeka” é coadjuvado por forças invisíveis conhecidas nessa comunidade como “yikixikixi” ou “espírito das águas”.



Do semanário O País, edição de 26/junho/2009
Mitologia da água, de Américo Kwononoka,
Diretor do Museu Nacionalde Antropologia.

Tradições angolanas – Mitos e verdades sobre a água

“É crença corrente que da água surgem forças
extra-naturais que podem proporcionar a prosperidade, o desenvolvimento ou o infortúnio e a miséria, em conformidade com a atitude dos homens.”

I – Lago Dilolo no Moxico

Baseada na tradição local, era uma aldeia predominantemente de caçadores Luvale (população actualmente dedicada à pesca fluvial, lacustre e das famosas chanas do Leste), no município de Luacano, província do Moxico.
Certo dia, como de hábito, foram às grandes caçadas. Ao voltarem à aldeia, encontraram-na transformada em lagoa, onde se ouviam vozes e gritos humanos sem as próprias pessoas.
Informadas as outras aldeias vizinhas sobre o incidente extra-humano, os caçadores ficaram a saber que passara uma velha mulher quase moribunda, pedindo água e comida. Os aldeãos não a atenderam e de imediato ela transfigurou-se em sereia e, tendo amaldiçoado a aldeia, esta transformou-se em lagoa.
A tradição corrente aponta que actualmente, quando os pescadores atiram suas redes para pescar nessa lagoa, ouvem vozes dizendo:
“ao lançarem as vossas redes, devem deixar espaços para nós, pois também vivemos.”

Do semanário O País, edição de 26/junho/2009
- Mitologia da água, de Américo Kwononoka, Diretor do Museu Nacional de
Antropologia.


Miss Landmine - Moxico

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Dúvida existencial

- Papai, Deus é homem ou é mulher?

- Querido, Deus não é homem nem mulher.

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- Papai, Deus é adulto ou é criança?

- Deus não é adulto e nem criança.

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- Papai, Deus é preto ou é branco?

- Deus não é preto e nem branco, meu amorzinho.

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- Papai, Deus é Michael Jackson?





In Memorian.
O mundo hoje acordou triste.
Essa doeu.

Falou e não disse

Da série "Como falar bonito sem dizer nada"

"Os progressos que Angola tem alcançado, mercê da riqueza que possui, devem definir o que é preciso fazer para seguir sempre em frente."
FHC, Luanda, Junho/2009


quinta-feira, 25 de junho de 2009

Liberdade de opinião e liberdade de informação

As comemorações, ontem, do 30º aniversário de criação do Ministério do Interior foram o mote para que a rádio Eclésia, hoje de manhã, suscitasse um debate ao vivo sobre a atuação da polícia, o combate à criminalidade e o sistema penitenciário angolano.
Os ouvintes telefonavam, declinavam nome e profissão, e o moderador lhes concedia alguns segundos para seus desabafos e questionamentos.
Como seria de se esperar, o assunto rolava entre as universais reclamações sobre a ineficiência da policia, sobre os crimes não solucionados, sobre os tiroteios que vitimam inocentes, sobre a lentidão do judiciário e o desaparelhamento do sistema prisional.
O moderador exercitava seu papel com rigor e competência, sem permitir que os participantes se alongassem demasiado ou perdessem o foco dos debates.
Lá pelas tantas, liga um ouvinte e, no meio de sua explanação sobre criminosos que não são punidos, pergunta:
- Porque não prenderam quem matou o professor?

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Nesse ponto, cabe uma informação que me foi prestada por meu companheiro de engarrafamento.
Segundo ele, corre à boca miúda que esse crime teria sido cometido por um longínquo membro da família imperial, que supostamente teria baleado um professor em razão de uma desavença.

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Bom, a pergunta ficou sem resposta, porque nesse exato momento a linha caiu e “perderam o contato com o ouvinte”.
E nada mais foi dito sobre o caso do tal professor.

domingo, 21 de junho de 2009

FHC e Zedú



FHC vem a Angola para uma palestra na próxima terça-feira:
“A projecção dos interesses nacionais dos Estados na arquitectura do mundo
contemporâneo e os efeitos da crise económica e financeira mundial nas economias
nacionais”.
Entendeu? Nem eu. Mas não faz diferença, a lotação está esgotada.
Ups! Palestra não. Conferência!

Kixikilas e kilapes

Aqui se chama Kixiquila. No Japão, Tanomoshi. No Brasil seria um consórcio informal de dinheiro, um tipo de ação entre amigos.
Junta-se um grupo seleto de pessoas confiáveis. Decide-se o valor. A cada mês, todos pagam e um recebe.
Com a bolada pode-se comprar um televisor, uma geladeira, material de construção, qualquer uma dessas coisas que não costumam caber no orçamento apertado do angolano normal.

O sistema bancário é incipiente.
Na falta de crédito ao consumidor, sobrevivem as antigas práticas comerciais, como a caderneta, o “pendura” ou “prego”.
O velho “comprar fiado” em Angola recebeu o nome de “kilape”. A depender da confiança e do grau de conhecimento, pode-se pagar em 30 dias ou em parcelas.

Todos recorrem ao kixiquila ou ao kilape e assim vão levando a vida.
Ainda não precisam de bancos.

domingo, 14 de junho de 2009

A Rainha que já não há

A Rainha Ginga foi defenestrada de seu pedestal no Kinaxixi.
O pedestal também já não está mais lá.
Pode ser que algum dia volte para enfeitar o saguão de algum shopping center.


A Ginga dançou.

Contagem

Ontem, na festa:

- Muito prazer em conhecê-la.
- Da mesma forma, obrigada.
- Há muito tempo estás em Angola?
- Três anos, quatro meses, dezessete dias.

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quinta-feira, 11 de junho de 2009

Causa Mortis

Mais uma história verídica da série
"Mitos ou Verdades"



Era um rapaz jovem, uns 34 anos se tanto. Deixou mulher e duas filhas pequenas. Andou adoentado tempos atrás. Um mês inteiro de licença, chegou a ser hospitalizado, mas não descobriram nada.


Melhorou, voltou ao trabalho. Gente fina, muito querido, foi recebido com efusão:

- Você fez falta, mas já está ótimo. Pronto prá outra!


Ultimamente reclamava de dores de cabeça quando ia trabalhar. Em casa não sentia nada, as dores começavam sempre no escritório. Foi à consulta, tirou umas chapas, nada.


Morreu subitamente. Passou mal no trabalho, foi levado ao hospital, morreu.


A família está desolada. Culpam o colega do escritório. Dizem que foi feitiço, praga. Pura inveja.


sábado, 6 de junho de 2009

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Surrealismo

Há certas coisas que, se eu contar, ninguém acredita.
Então aí está. Vejam e creiam.
Depois conversamos.

P.S. : Ai de ti se desobedecer.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Estatísticas


Manhã de segunda-feira.

Enquanto fechava as malas para regressar a Luanda, ouvi no Bom Dia Brasil a notícia do desaparecimento do Airbus da Air France.

As estatísticas estavam todas a meu favor. O transporte aéreo continua a ser mais seguro que os demais e é bem remota a probabilidade de queda de dois aviões no mesmo dia, no mesmo lugar.

Meu vôo saiu com atraso de duas horas. Depois de 45 minutos regressou a São Paulo em virtude de uma pane não especificada. Tive tempo de assistir ao Jornal Nacional inteiro, antes do reembarque. Cinco passageiros desistiram da viagem.


Cheguei em Luanda com um gosto amargo na boca.