
Moro numa “vivenda”, que divido com um colega recém-chegado à cidade. A casa é grande, são três andares, quatro quartos e um anexo com mais dois quartos. Todos reservados pela empresa para consultores hoje ausentes, em fase de renegociação de contratos, ou para supervisores de projeto que aparecem eventualmente.
A administração está a cargo de uma firma especializada, que faz a manutenção, paga contas e contrata empregados: temos fixos uma governanta, uma cozinheira, uma arrumadeira e um jardineiro. Os moradores são por eles chamados de “hóspedes”. Temos também três vigilantes que se revezam em turnos, contratados por uma empresa de segurança. E um número variável de motoristas, a depender da quantidade de moradores (hóspedes) e de carros à disposição. Pertencem aos quadros de uma terceira empresa. Nunca tive tanta gente “a meu serviço”, e certamente nunca mais terei.
Acordo cedo, por volta das seis e meia da manhã. Tomo banho, me visto e preparo pessoalmente o matabicho, porque nem a cozinheira, nem ninguém chega antes das oito. Deveriam chegar, mas sempre existem n+1 razões para os infalíveis atrasos. O trânsito, por exemplo.
Pelo caminho mais curto, são três quilômetros de casa até o trabalho. Ou duas horas no engarrafamento. Por vias alternativas, que variam ao sabor dos ventos, dos palpites e da sorte, costumo gastar 45 minutos no trajeto, nos dias bons. Nunca menos de meia hora.
Gosto de almoçar em casa, um luxo. Uma hora e meia para ir e voltar, vinte minutos para almoçar, tirar os sapatos, escovar os dentes e dez minutos para dar uma espichada no esqueleto.
À noite o trânsito é mais complicado, demoro mais. Chego em casa lá pelas 19:30 ou 20 horas. Uma cerveja, um uísque e vou preparar o jantar (a essa hora todos já foram embora). Às vezes é só requentar a sopa, às vezes um pão com queijo e fiambre resolve.
Aos sábados faço supermercado. Verdurinhas frescas nem sempre são fáceis de achar. Quando se acha, são caras. Conversei com o jardineiro para fazermos uma horta, temos espaço. Ele foi muito receptivo à idéia, combinamos tudo: ele prepararia os vasos e se encarregaria de regá-los, já que trabalha na casa todo dia. Eu compraria terra vegetal, adubo, sementes, o que precisasse. Há dois meses. Terra vegetal e sementes compradas procuram vaso para ser plantadas.
Este é o ritmo, este é o esquema. Não é o meu ritmo. Transito por ele, convivo, nem sempre com muito bom humor. Sou apenas hóspede, na vivenda e no país.
Quando vim para cá, trouxe ímãs de geladeira para enfeitar a geladeira da cozinha da minha casa. Na verdade, não tenho uma casa ou uma geladeira para chamar de minha. Os ímãs ainda estão guardados.
===================================
Um amigo procura uma casa para alugar. Prefere as bandas do Benfica. Se alguém puder ajudar, ou indicar um bom corretor de imóveis, agradecemos.
===================================