domingo, 26 de abril de 2009

O homem que roubou Portugal


A história é tão absurda, mas tão absurda, que quase não dá para acreditar. Mas é real.
Em 1925, Artur Virgílio Alves Reis, o maior falsário de todos os tempos, aplicou um golpe calculado em 2,6% do PIB português na época.
Mais do que uma simples falsificação de cédulas, Alves Reis conseguiu a emissão clandestina de 580 mil notas de 500 escudos. Tanto dinheiro que para escoá-lo foi fundado o Banco de Angola e Metrópole, elevando Alves Reis à categoria de grande financista e redentor da então província. Até que um dia .... alguém notou que o rei estava nú.
A história é contada pelo jornalista Murray Teigh Bloom, em ritmo de romance policial.
Delicioso.



sábado, 25 de abril de 2009

Bate-boca no Supremo


Em discussão no Supremo Tribunal Federal, o Ministro Joaquim Barbosa acusou o presidente do tribunal, Gilmar Mendes, de "destruir a credibilidade da Justiça".

Para saber mais, clique aqui.



quinta-feira, 23 de abril de 2009

Santo António de Luanda


Esta é a Igreja de Santo Antônio, no município do Cazenga, Luanda, devidamente repaginada para receber a visita do Papa Bento XVI em sua viagem à África.
Pintura nova, jardins bem cuidados, tudo limpinho e brilhante, por dentro e por fora.


Fui até lá dia desses. Era sábado. A igreja tem um muro alto que a separa da rua. Um portão e um pátio grande. Tive a sensação de ter saído de Luanda, ou de ter desembarcado numa Luanda do futuro. Calma, espaçosa, organizada, solidária. Ao ar livre, à sombra das árvores, jovens ministravam para outros jovens aulas de matemática, química e física. Trabalho voluntário.






Os grupos de estudo organizam-se sozinhos, no boca-a-boca. Ninguém sabe como começou. É o mais lindo trabalho comuntário que já vi por aqui. Simples, barato e eficiente. Alguns bancos de cimento, uma árvore frondosa, um quadro negro pregado no muro.


domingo, 19 de abril de 2009

Histórias da guerra

Mitos ou Verdades - Parte 2

Conta-se que, durante a guerra civil, as tropas em litígio lançavam mão de expedientes pouco ortodoxos para desestabilizar o moral e a organização dos adversários.

Savimbi, ao avançar em direção às posições ocupadas pelo MPLA, mandava chuva forte sobre o acampamento das tropas inimigas. Ao chegar, com o acampamento devastado pela chuva, tinha o seu trabalho facilitado.
Por vezes, em vez de chuva, mandava enxames de abelhas.

Mas... vento que venta lá, venta cá.
Ouvi também que certa vez uma tropa da UNITA chegou ao Bengo, bem às portas de Luanda, e encontrou um velho bem velho à margem da estrada.
Insatisfeitos com a recusa do velho em lhes dar informações sobre o paradeiro das tropas do MPLA (se por desconhecimento ou teimosia, não se sabe), aplicaram-lhe uma memorável sova antes de seguir em frente e entrar num capão de mato ali perto.
Logo depois chegaram os soldados do MPLA e encontraram o velho todo machucado jogado na sarjeta. Ao saberem do ocorrido, pretenderam ir atrás dos agressores. Foram impedidos pelo velho, que afirmou já ter resolvido o assunto.
E tinha mesmo. Os homens da UNITA se perderam dentro do capão de mato. Um bosquezinho à toa, do qual se poderia sair com dois minutos de caminhada em qualquer direção. Morreram de fome e de sede. O batalhão do MPLA ficou de fora assistindo.

sábado, 18 de abril de 2009

Mitos ou Verdades?


Verdades ou Mitos? É o nome de um programa transmitido pela Rádio Luanda quase todo dia e que me distrai na volta para casa, durante os loooooooooooooongos congestionamentos de trânsito.
Funciona assim: a apresentadora Patrícia Farias faz uma pergunta sobre algum tema da tradição popular e os rádio-ouvintes (é assim que se escreve?) telefonam para responder se acreditam naquilo ou não. Bem simples.

Perguntas do tipo:
1 – Papel na testa cura soluço?
2 – Apanhar o buquê da noiva assegura casamento?
3 – Quem pisa com pé descalço no chão úmido ao sair da cama, pega doença venérea?
4 – Se a mulher grávida passar muito tempo na companhia de determinada pessoa, o filho nascerá parecido com essa pessoa?

As respostas com frequência são surpreendentes. Muitas histórias são contadas para corroborar as opiniões e demonstrar de uma vez por todas, por A+B, que aquilo é (ou não é) verdade (ou mito).

Semana passada a pergunta do dia era: sal no sapato cura bebedeira?
Umas dez pessoas foram entrevistadas. A maioria disse que sim.
Pelo que ouvi, o que funciona não é bem sal no sapato, mas sal no pé, dentro do sapato. Massagear os pés com sal também serve, levanta qualquer um.

Pelo sim, pelo não, faço o registro. De repente, alguém pode ter oportunidade de testar.




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sexta-feira, 17 de abril de 2009

Calema


Hoje aprendi uma palavra nova: calema.

É o mar de ressaca.

A calema chegou à ilha de Luanda no meio da noite e fez um estrago enorme. Ouvi no rádio os depoimentos emocionados de pessoas que tiveram suas casas invadidas pelo mar ou destruídas pela força das ondas.

Amanhã vou lá espiar.


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De ontem para hoje, a lua saiu da fase cheia e começou a minguar. Na transição, a calema atingiu também outros ambientes de Luanda.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Cronometrando

Todo mundo sabe que Luanda debaixo de chuva é o caos completo. Eu também já disse isso, já escrevi e longe de mim querer renegar.
Pois bem. Hoje o dia amanheceu chovendo. Chuvinha fina, mas chuva. De estragar a escova do cabelo, molhar os sapatos e dar saudades do guarda-chuva. Apesar disso, levei "apenas" 20 minutos de casa até o trabalho. Uma das melhores performances desde que me mudei para o atual endereço.
Para compensar, de noite, na volta para casa, foram 2 horas e meia de engarrafamento, para os mesmos três quilômetros. Sem chuva.

Vai explicar!

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Sobre morar em Luanda

Moro numa “vivenda”, que divido com um colega recém-chegado à cidade. A casa é grande, são três andares, quatro quartos e um anexo com mais dois quartos. Todos reservados pela empresa para consultores hoje ausentes, em fase de renegociação de contratos, ou para supervisores de projeto que aparecem eventualmente.

A administração está a cargo de uma firma especializada, que faz a manutenção, paga contas e contrata empregados: temos fixos uma governanta, uma cozinheira, uma arrumadeira e um jardineiro. Os moradores são por eles chamados de “hóspedes”. Temos também três vigilantes que se revezam em turnos, contratados por uma empresa de segurança. E um número variável de motoristas, a depender da quantidade de moradores (hóspedes) e de carros à disposição. Pertencem aos quadros de uma terceira empresa. Nunca tive tanta gente “a meu serviço”, e certamente nunca mais terei.

Acordo cedo, por volta das seis e meia da manhã. Tomo banho, me visto e preparo pessoalmente o matabicho, porque nem a cozinheira, nem ninguém chega antes das oito. Deveriam chegar, mas sempre existem n+1 razões para os infalíveis atrasos. O trânsito, por exemplo.

Pelo caminho mais curto, são três quilômetros de casa até o trabalho. Ou duas horas no engarrafamento. Por vias alternativas, que variam ao sabor dos ventos, dos palpites e da sorte, costumo gastar 45 minutos no trajeto, nos dias bons. Nunca menos de meia hora.

Gosto de almoçar em casa, um luxo. Uma hora e meia para ir e voltar, vinte minutos para almoçar, tirar os sapatos, escovar os dentes e dez minutos para dar uma espichada no esqueleto.

À noite o trânsito é mais complicado, demoro mais. Chego em casa lá pelas 19:30 ou 20 horas. Uma cerveja, um uísque e vou preparar o jantar (a essa hora todos já foram embora). Às vezes é só requentar a sopa, às vezes um pão com queijo e fiambre resolve.

Aos sábados faço supermercado. Verdurinhas frescas nem sempre são fáceis de achar. Quando se acha, são caras. Conversei com o jardineiro para fazermos uma horta, temos espaço. Ele foi muito receptivo à idéia, combinamos tudo: ele prepararia os vasos e se encarregaria de regá-los, já que trabalha na casa todo dia. Eu compraria terra vegetal, adubo, sementes, o que precisasse. Há dois meses. Terra vegetal e sementes compradas procuram vaso para ser plantadas.

Este é o ritmo, este é o esquema. Não é o meu ritmo. Transito por ele, convivo, nem sempre com muito bom humor. Sou apenas hóspede, na vivenda e no país.

Quando vim para cá, trouxe ímãs de geladeira para enfeitar a geladeira da cozinha da minha casa. Na verdade, não tenho uma casa ou uma geladeira para chamar de minha. Os ímãs ainda estão guardados.



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Um amigo procura uma casa para alugar. Prefere as bandas do Benfica. Se alguém puder ajudar, ou indicar um bom corretor de imóveis, agradecemos.
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terça-feira, 7 de abril de 2009

Mundo de Alice


Quero respirar fundo e tomar fôlego para mais uma jornada.
Quero me iludir.
Enquanto espero, preencho o vazio com decretos, rascunhos, degraus, congestionamentos de trânsito, sorrisos cansados.
Faço de conta que não percebo o que vejo.
Paciência. Mais paciência.
Hoje não sei o que estou fazendo por aqui. Devo ter me perdido pelo caminho.
No mundo de Alice qualquer caminho serve.
Saio de casa, posso ir à direita ou à esquerda. Ou posso ir em frente, tanto faz. E para qualquer escolha, logo existem outras, e outras, e outras.
E todas dão igualmente na mesma venda, que já não há.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Teologia do Alheamento


Eu sei que o tema está gasto e todo mundo já falou o que tinha de falar. Mas a revista Carta Capital desta semana trouxe uma reportagem de 10 páginas sobre a distância abissal que se observa entre a Igreja Católica e a realidade social da parcela terrena e laica da humanidade.

Trata da teologia do alheamento, a teologia da indiferença.

Só uma dose muito elevada de autismo social pode explicar a excomunhão dos médicos do Recife, no caso do aborto da menina de nove anos estuprada pelo padastro. Ou o perdão do bispo lebfreviano que negou o holocausto. Ou ainda a promoção do padre austríaco que, entre outras façanhas, denunciou o satanismo de Harry Potter e atribuiu à justiça divina o tsunami que puniu os turistas devassos da Tailândia. Sem falar no furacão Katrina, lançado contra os bordéis de Nova Orleans.

Reproduzo os comentários da revista sobre a visita do Papa à África.

Um papa no bunker
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No único continente onde o catolicismo cresce de maneira significativa, Camarões e Angola são países com grande proporção de católicos. Perdido o contato com os costumes e relações sociais nas quais se baseavam seus cultos tradicionais, as populações que o êxodo rural arrancou de suas raízes tribais e jogou nas favelas procuram comunidades religiosas mais adaptadas a uma cultura urbana parcialmente ocidentalizada. A Igreja Católica continua a se beneficiar dessa desestruturação, embora seja crescente a concorrência do Islã, as igrejas evangélicas e de novos cultos sincréticos africanos.

O papa pareceu, porém, decidido a mostrar aos convertidos reais ou potenciais que o catolicismo não atenderá às necessidades sociais e espirituais da África moderna. Ainda no avião, condenou os preservativos em uma região que registra mais de 70% dos óbitos por AIDS no mundo, onde 20 milhões já morreram e outra vida é perdida para a doença a cada 15 segundos.

Caso se limitasse a objeções teológicas, pouco haveria a dizer. Mas Ratzinger contrariou a ciência e o bom senso, insistindo em que a distribuição de preservativos agrava a epidemia. Ministros europeus, inclusive de países católicos, tomaram a iniciativa incomum de censurar o papa. O chanceler francês o acusou de "pôr em perigo a política de saúde pública em relação à proteção da vida humana". A ministra da saúde belga chamou sua posição de "perigosamente doutrinária". Os ministros do Desenvolvimento e da Saúde alemães condenaram a afirmação do compatriota como "irresponsável".

Não foi a única mostra de insensibilidade, desinformação ou ambas as coisas por parte do papa. Enquanto ele se preparava para falar de solidariedade e condenar a ganância, a violência e a corrupção, a Igreja fechava os olhos aos preparativos do corrupto e violento governo camaronês para a visita. Incluíram demolir com escavadeiras todas as casas e lojinhas que prejudicassem esteticamente o caminho entre o aeroporto e o centro da capital, Yaundé, sem perguntar como seus donos iriam trabalhar, dormir e comer nos dias seguintes.
Ali, o papa proclamou que a "a África está em perigo devido a imorais sem escrúpulos que tentam impor o reino do dinheiro desprezando os mais miseráveis", antes de viajar para Angola. O governo desse país empobrecido e devastado por décadas de guerra civil também fez gastos milionários para receber o pontífice. Além disso, em Luanda, a Igreja organizou dois jantares de gala a 500 dólares por cabeça, arrecadando cerca de 270 mil dólares para receber "mais dignamente" a passagem do pontífice.

Os responsáveis pelos caros e cuidadosos preparativos, que incluíram a mobilização de 12 mil policiais para cuidar da segurança do papa e de sua comitiva, não deram igual peso à segurança dos humildes. Na confusa abertura dos portões do Estádio Municipal dos Coqueiros, em Luanda, onde o papa encontraria a juventude angolana, um tumulto matou duas moças por esmagamento e mandou 89 jovens a hospitais.

Alheio ao drama, o papa assistiu à coreografia dos jovens que conseguiram entrar e os convidou a não ter medo de ousar "decisões irreversíveis" do casamento da ordenação sacerdotal. Só no dia seguinte, quando o desastre - ignorado pela cobertura oficial - foi divulgado na imprensa internacional, a Igreja e o governo angolano enviaram representantes ao hospital para visitar feridos e levar seus pêsames à família de uma das mortas, uma catequista de 22 anos. A outra, não identificada, foi levada ao necrotério como indigente.

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Para quem não conhece, a Carta Capital é uma das melhores revistas semanais brasileiras, sóbria e correta. Pratica um jornalismo da melhor qualidade.

Carta Capital - 1º de abril de 2009 - nº 539
Por Antonio Luiz M. C. Costa