domingo, 31 de agosto de 2008

Na paz

Campanha eleitoral



Educação cívica. Vote, mas se beber não dirija.

Quem arrisca?


Está em todos os jornais: o governo nega o risco de desabastecimento de produtos essenciais no período pré e pós eleitoral. Entretanto, há quem duvide.

Vou ali, volto já

Acordei às seis, o RP (relações públicas) passaria para me pegar às sete. O ckeck-in devia começar às sete e meia. Melhor não arriscar um over book, mesmo que o vôo só esteja marcado para o meio dia.
Combinamos na véspera. Tudo certo com a passagem, bastava procurar R... no aeroporto. Minha primeira viagem de volta ao Brasil, depois de dois meses de Luanda.
Sete e quinze, ninguém. Desci a bagagem, fiquei esperando. Nada do RP. A essa altura, já somos três brazucas no portão. Desce o quarto brazuca, engajado em outro projeto, servido por um motorista pontual. Pego uma carona para o aeroporto. Chegamos. Fila quilométrica. Sou barrada na portaria. Portaria do aeroporto. Existe? Em Luanda existe.
- Cadê a passagem?
- Está com R...., lá dentro.
- Então ele deve vir até aqui.
- Mas como posso avisá-lo?
- Não sei, mas sem passagem não entra.
O colega que me deu carona entra. Marinheiro de segunda viagem, tinha providenciado cópia da passagem. Cópia do e-ticket. Na portaria, fez toda a diferença. Fico esperando. Chega o RP, com os dois brazucas que eu tinha deixado prá trás. Entram. Eu berro:
- Ei! J...! (J é o RP.) Ele me olha e me vê! Entro junto. Nessa altura, R..... já tinha me identificado: esta pessoa é minha passageira! Valeu! Olho agradecida e entro na fila do check-in. Fila especial, anda rápido. R... conhece todos os atalhos, todos as engrenagens. Logo logo os quatro brazucas despacham suas bagagens.
Entramos na área restrita. Três de nós. O quarto brazuca fica retido na barreira. Seu visto está vencido.
- Não está.
- Está.
- Não está, eu sei que não está.
- Quer saber mais do que eu?
Pronto, confusão armada. Multa de cento e cinquenta dólares por dia de visto vencido. Quantos dias? Ixa! Nem quero saber. Nem ele, a firma paga. Mas enquanto a discussão se desenvolve nós, os três brazucas com visto válido, passamos a bagagem de mão pelo raio-X. Laptops de um lado, outros pertences de outro lado, tiro colar, relógio, pulseira. OK, todos salvos. Salvos? Coisa nenhuma!
- Por favor, queiram entrar neste recinto. Um de cada vez. Quanto de dinheiro levas?
- O permitido pela legislação, respondi (tinham me alertado para a fria que era declarar valores aproximados).
- Quanto?
- Não sei ao certo.
- Posso ver?
Caramba. Pode, né? Vou dizer que não? Mostro uma carteira com umas poucas notas de US$ 100. E alguns reais.
- E kwanzas?
- Kwanzas não tenho, não posso sair com eles, não é?
- Não pode, teria de deixá-los aqui.
Desejaram a mim uma boa viagem. A outros brazucas pediram uma gasosa, em prol da boa amizade entre as nações. Uns deram, outros não. Mas passamos essa outra barreira, e fomos monitorar a aventura de nosso colega sem visto da sala de embarque. Nove horas da manhã. Tomo um café. Vou espiar as lojinhas de artesanato ali fora. Pensei em fazer um agrado aos amigos, quem sabe aquelas pulseiras de rabo de elefante, tão tradicionais nos anos setenta... saudosismo puro. Vi no mercado do Benfica por quinhentas kwanzas, menos de US$ 7 dólares. Na primeira lojinha do aeroporto me pediram US$ 35,00. Na segunda era mais barato. Vinte. Vai ficar prá próxima, penso, e volto prá sala de embarque. O tempo não passa. Dez horas. Onze. Onze e meia. O presidente da república vai viajar para algum lugar, fecham o aeroporto. Ele está em campanha, afinal faltam apenas 7 dias para as eleições. O presidente embarca, liberam a pista. Chamam nosso vôo. Próxima barreira:
- Você despachou alguma bagagem?
- Despachei.
- Então é preciso identificá-la antes de entrar no ônibus.
Vamos lá. Todas as malas estão no pátio, esperando identificação. Procuro a minha. Lá, achei! Agora é levá-la para o carrinho/container, para ser embarcada. Entro na fila do carrinho/container. Nada disso. Um policial/fiscal/agente-aduaneiro/chefe não concorda com a maneira com que sua equipa está a conduzir o embarque das bagagens e resolve interromper o processo. Reunião no pátio, gritos, confusão. As malas que já estão nos carrinhos/container são descarregadas. Começa tudo de novo. Não começa não, o vôo está atrasado. Chega outro chefe, mais discussão. As malas vão de novo pro carrinho/container.
- Mas esta mala é da executiva, e este carrinho é da econômica. Não pode. Tem que ir naquele outro carrinho.
- Mas aquele outro está cheio, não cabe.
- Ora, mas não há o que fazer....



Doze e trinta. Conseguimos embarcar. Boas vindas, alguns sorrisos da tripulação. [A tripulação da TAAG é bem econômica nos sorrisos.] O avião está vazio, quem falou em overbook? Uma hora da tarde. O comandante avisa que o vôo está atrasado e pede desculpas. Decolamos às treze e trinta. Um pacotinho de jingoba (amendoim) e um drinque. Pergunto o que teremos para o almoço. Carne, frango e peixe, respondem. Duas e trinta. Passa o carrinho do almoço.
- Carne ou frango?
- Não tinha peixe?
- Tinha, mas já não há. Acabou.
Escolho a carne. O passageiro da fila ao lado escolhe o frango.
- Ainda bem, diz a comissária de bordo. Carne também já não há.
E passa distribuindo fones de ouvido. No telão, um filme com Jack Nicholson e Morgan Freeman. O fone de ouvido não funciona. Um dos brazucas me oferece o dele. Também não funciona. Tento ligar no plug da cadeira vaga ao lado da minha. Nada. Desisto. Fico no laptop até acabar a bateria.
.....

Chegamos ao Rio. Passo pela imigração, vou esperar a mala na esteira. Alguém da agência de viagens deve estar me esperando do lado de fora, com um bilhete para conexão imediata. Tento ligar para casa, o celular está sem crédito. Dois meses sem usar, créditos bloqueados. Queria passar na free-shop também, tomara que dê tempo.
Mas a mala não chega. Somos uns cinco sem-mala.
- Cadê?
- Ficaram retidas.
- Onde? Por que?
- Polícia Federal, controle sanitário. Alguma coisa esquisita apareceu no raio-X.
Somos chamados à polícia federal.
- Trouxe alguma coisa de comer dentro da mala?
- Não, só artesanatos.
Aguardo a minha vez para inspeção. Um senhor atrás de mim fura a fila. Está ansioso, não consegue achar a chave da mala. Faço que não percebo. Xapralá. Um angolano é revistado na minha frente. Trouxe dois tipos de fuba, peixe seco e uma moita de caxinde. Outros itens comestíveis estão dentro de sacos plásticos, não consigo identificar. Tudo apreendido, ele fica inconsolável.
Minha vez. Abro a mala: tem banana, carambola, maçã, cacau, manga, abacate, um rolete de cana de açúcar, mamão, cajú e mais três outras frutas cujo nome não me recordo. Todas de madeira, lindas. Cada peça de uma madeira diferente, compradas lá no Mussulo, mês passado. Diversão geral, pedido de desculpas, saio correndo para procurar o cara da agência, com minha passagem da conexão. Free-shop só na volta. Semana que vem volto prá Luanda, a tempo de acompanhar a apuração das eleições. Vastas emoções me aguardam.

Por causa deste contrabando, quase perco a conexão.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Ser angolano é...

Em Angola não tem polícia, tem MAGALA OU MALAIKE
Angolana não fica com má aparencia, fica NGAXI
Angolano não foge, TIRA VOADO
Angolano não é passageiro, É PAX
Angolano não é velho, é KOTA, PAPOITE, MAMOITE
Angolano não tem dinheiro, está BOSSANGA, FERVE, tem CUMBU, tem MASSA
Angolano não está mal, TÁ MALAIKE
Angolano não fala, DÁ UMA DICA
Angolano não é cidadão, É MUADIÉ OU WI
Angolano não tem problema, tem BABULO
Angolano não é grosso, é CAENCHE
Angolano não mente, dá BILINGUE ou dá JAJÃO
Angolano não bebe cerveja , bebe BIRRA OU PIVEN
Angolano não bebe whisky, bebe MAMBITO
Angolano não viaja, SAPA
Angolano não escuta música, CURTE OS BRINDES OU SON
Angolano não trabalha, BUMBA ou BULI
Angolano não luta, BILA
Angolano não curte, TCHILA
Angolano não faz amor, TCHACA, CUNA, PÉRA, ORÇA ou TIRA UMA ÁGUA
Angolano não conquista mulher alheia, TROLA
Angolano não tem moto, TEM UMA TURRUM
Angolano não é multado , É PENTEADO
Angolano não está aflito , ESTÁ PAIADO
Angolano não tem ressaca , TÁ OVER
Angolano não vê mulher bonita , vê MBOA
Angolano não tem namorada, tem GARINA...DUCHA....GADAIA
Angolano não fica pobre, fica WAZEBELE OU ANCORADO
Angolano não olha, GALA, MARA
Angolano não tem traje de gala, tem GRIFE
Angolano não tem Mulher ou Namorada, tem DAMA, XKINDOSA,TUCHA
Angolano não conquista a mulher, DICA DAMA
Angolano não e polígamo, É GAJO DE GAJAS
Angolano não vai a funeral, VAI AO KOMBA ou OSCAR
Angolano não faz crédito, faz KILAPI
Angolano não pensa, BANZELA
Angolano não vai, TIRA O PÉ
Angolano não rouba, GAMA
Angolano não ultrapassa, DÁ MBAIA
Angolano não morre, DÁ CALDO OU DÁ NTUM
Angolano não estuda, AMARRA
Angolano não conduz, ELE PEGA OU NDUTA
Angolano não come, PITA
Angolano não bebe, CHUPA
Angolano não dança, BAILA
Angolano não toma o pequeno almoço, MATABICHA
Angolano não vai a festa, VAI AO BODA
Angolano não veste, TRAPA
Angolano não faz xixi, DA UMA SUSSA
Angolano não passeia, ZUNGA
Angolano não sente frio, sente KAWELO
Angolano não faz musculação, MANGUITA
Angolano não sai à noite, DESBUNDA
Angolano não arranja dama, LHE MORREM
Angolano não telefona, FONA
Angolano não tem fome, TÁ FOBADO
Angolano não come, PÁPA
Angolano não é angolano, é MWANGOLÉ
Angolano não é refugiado, é TURISTA
http://www.mygroupx.com/blogs_view.php?id=55

domingo, 24 de agosto de 2008

Trabalho de mulher

Essas mulheres estão por toda a parte, todos os dias, varrendo as ruas de Luanda. Elas não são catadoras de lixo, apenas varrem a poeira acumulada. Varrem ou espalham, não dá para saber a diferença. Há quem as considere símbolo de desperdício e ineficiência. Acho que deve haver um objetivo social por trás que explique. Se é que se explica.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Xixi ecológico


Para as mulheres, fazer xixi fora de casa é sempre uma situação a ser evitada. Quando não é possível, a experiência costuma provocar ansiedade, insegurança e desconforto. Banheiros públicos, por melhores que sejam, são percebidos como uma espécie de ante-sala do purgatório: provação obrigatória antes da redenção.
Para os homens, a quem foi concedido o privilégio de fazer xixi em pé, o assunto é diferente. Não há estresse, não há constrangimento. Jogo rápido. Qualquer cantinho reservado serve. Se tiver uma plaquinha de WC na porta, tanto melhor.
O caso é que, em Luanda, essa naturalidade masculina beira o surrealismo. Qualquer lugar é lugar, qualquer hora é hora. À luz do dia, é só virar de costas para a rua e pronto. Um muro na frente (qualquer muro) pode ser uma condição desejável, mas nem necessária é.
A gente sai de casa, o carro fica preso no engarrafamento, para passar o tempo podemos ficar brincando de “quem vê mais gente fazendo xixi na rua”. Em alguns lugares a contagem dispara. Esse da foto abaixo foi clicado assim.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Luanda, cidade maravilhosa?!...


Copiei a matéria abaixo da Folha 8, semanário dito independente, de oposição ao governo angolano. É um relato bastante impiedoso das condições de vida em Luanda, mas nem por isso menos acurado. Não identifiquei nenhuma inverdade, imprecisão ou distorção. Minha experiência pessoal, depois de um mês e meio de permanência em Luanda, está plenamente refletida nessas linhas. Com a possível diferença do humor, da cor das lentes através das quais vivo o cotidiano da cidade e vislumbro seu futuro. E faço fé.

Em Angola, onde falta tudo, boom do petróleo atrai novos negócios”.
edição de 16 de agosto de 2008 – Ano 13 v n° 926)

O hotel Palanca Negra, em Luanda, a capital de Angola, tem mais de 50 quartos. Os duplos, muitos deles sem janela, têm duas caminhas de solteiro, estreitas e baixas, bem próximas entre si e distantes cerca de 50 cm da parede em frente, cada uma com sua mesinha de cabeceira. Ao todo não têm mais de 20 metros quadrados cada, incluindo um pequeno banheiro com seu minúsculo box. O quarto individual é metade disso. O hotel cobra US$ 113 por um e US$ 100 por outro. A demanda é grande. Reflexo de uma cidade e um país onde falta quase tudo e que, ao mesmo tempo, experimenta taxas de crescimento exponenciais, 20,6% em 2005, 18,6% em 2006 e alguma coisa nessa faixa este ano, segundo as previsões.
A guerra civil que aniquilou o País terminou em 2002, e a reconstrução entrou na ordem do dia, movida a petrodólares, principalmente. Dos US$ 31,3 bilhões exportados no ano passado, o petróleo respondeu por 96%.
Porém, não quer dizer que Angola seja uma filial do paraíso em território africano. Está mais para seu eterno concorrente, impressão que marca imediatamente quem chega a Luanda, com seus 5 milhões a 9 milhões de habitantes, dependendo de quem faça a conta. As estatísticas são estimadas, pois não há censo no país desde 1970.
O Palanca, cujo nome homenageia o belo e quase extinto antílope, símbolo nacional, fica dentro de uma área cercada, chamada cidadela, anexo ao maior estádio de futebol da cidade.
Conformando-se com as acomodações, o visitante leva um soco no estômago ao transpor o portão da cidadela, cujo pátio é um tanto caótico.
Na rua em frente, a poeira envolve a tudo e a todos, levantada por um trânsito infernal e alimentada por uma obra de canalização de uma vala tocada por empresa da China. É o futuro, ajudando a piorar o presente. Alguns metros à direita e a rua cruza com outra maior e mais confusa: é Avenida Brasil, para os íntimos, porque em Luanda não há placas de rua.
O trânsito louco é dominado por enormes carros do tipo picape 4X4 e por dezenas de vans azuis e brancas. São os “táxis”, ou candongas, único arremedo de transporte público da cidade.
Táxi mesmo, como se conhece no resto do mundo, não há, a não ser um inoperante serviço por telefone. (De brasileiros, acrescentamos) Ônibus idem, e é melhor haver, porque uma frota de cem veículos desse tipo seria suficiente para provocar um colapso na cidade. (A MACON trouxe autocarros velhos, VW há anos) Em Luanda, para quem não se dispõe a andar nas entulhadas candongas (e não se vê branco, ou “pula”, nos candongas), é imprescindível ter um carro. Com motorista, pois não há vagas para estacionar e também porque só se chega aos lugares por referências. Endereço é uma mera formalidade. E o motorista precisa ser esperto, saber cortar caminho, senão o dia se esvai na pasmaceira do tráfego poeirento. Cortar caminho quer dizer entrar por lugares sem nenhum vestígio de urbanização, logo atrás das ruas principais, deparando-se com montanhas de lixo e com favelas, aqui conhecidas como “musseques”, espalhadas pelo miolo da cidade. Segundo cálculos da organização não governamental Development Workshop, pelo menos três quartos da população da capital angolana vive nesses musseques. Vê-se obras por toda a parte, a maioria tocada por chineses, que trouxeram mais de US$ 7 bilhões, financiamento e estão a trabalhar directamente para o Gabinete de Reconstrução Nacional (GRN).
Não é preciso sair das vias principais para ver a marca da pobreza extrema. Dezenas, talvez centenas, de edifícios construídos pelos colonizadores portugueses nos anos a950 e 60, abandonados às pressas e ocupados pela população local, têm hoje a aparência de favelas verticais, como os velhos conjuntos habitacionais construídos na mesma época no Rio de Janeiro para abrigar as populações removidas das áreas ricas da cidade.
Eles são sujos, cheios de lixo e de restos de esgotos na frente, a fachada caindo aos pedaços. A reportagem entrou num desses prédios, um dos mais bem cuidados. Não há elevadores a funcionar. Em muitos casos, os prédios tiveram os poços do elevador transformados em lixão. Baratas e detritos (há ratos em muitos deles) dividem o espaço de acesso às escadas, que não têm corrimão em metade dos seis andares.
Transposta uma grade de ferro chega-se à porta de um óptimo e espaçoso apartamento de dois quartos e dependências, uma autêntica cena do filme “Blade Runner”. Todas as facilidades modernas estão lá dentro. O aluguel? US$ 50 mil por ano, pagos antecipadamente.
Luanda é a capital da carestia. Pior no mundo, apenas Harare, capital do Zimbábue.Um simples espaguete com molho de carne em local despretensioso pode custar US$ 30. O aluguel de um carro com motorista sai por entre US$ 150 a US$ 200 a diária. Os iniciados conhecem alternativas, mas elas estão sempre indisponíveis.
Na capital angolana, todos são obrigados a ter gerador porque, embora o país seja auto-suficiente em geração de geração de energia elétrica, (!!!????) a rede de distribuição não suporta a carga, e a empresa fornecedora é obrigada a desligar o fornecimento. Todos têm telefone celular. A telefonia fixa é totalmente incipiente.
No sofisticado supermercado Casa dos Frescos, um quilo de tomate sai por 1.004 kwanzas, a moeda oficial. Ao câmbio de KZ$ 75 por dólar, isso quer dizer mais de US$ 13. O dólar também é moeda corrente em Luanda, sendo legal seu uso em transações e depósitos. Uma minivalorização da moeda local feita este ano (de Kz$ 80 para Kz$ 75 por dólar) tem elevado os depósitos em kwanzas.
Porém é possível comprar o tomate nas ruas, de uma zungueira (mulher que, com uma espécie de bacia na cabeça, vende todo tipo de alimento nas ruas) por até Kw$ 200. Mas comprar alimentos na ruas é um risco. Dizem que andar a pé também, especialmente para brancos, mas em uma experiência de atravessar aproximadamente quatro quilômetros entre a cidadela e a Mutamba, bairro que abriga o centro comercial e de serviços da cidade, a reportagem não foi molestada.
Difícil é atravessar os cruzamentos, com tráfego permitido em todos os sentidos e, na maioria dos casos, sem qualquer sinalização ou simplesmente controlados por guardas vestidos com luvas brancas, os “trânsitos”. Meninos e rapazes vendem de tudo na margem do asfalto e nas calçadas onde elas existem. São verdadeiras lojas ambulantes.
A caminhada revela aspectos chocantes, como uma loja da Lacoste com paletós de mais de US$ 500 na vitrine, ao lado de um prédio semidestruído, habitado, exalando um incrível cheiro de lixo.
O comércio sofisticado é raro, mas existe, em sobrevivência íntima com a pobreza, como a loja Andy’s, uma espécie de Daslu angolana, bem próxima de um musseque. Foi inaugurada pela primeira-dama do país e tem até um autêntico café parisiense anexo.
Os musseques estão por toda parte, com montanhas de lixo onde as crianças brincam. Há planos de remoções. No miolo da cidade, eles tendem a ser expelidos pela enorme actividade imobiliária. Brasileiros que trabalham na capital angolana dizem quem ficar dois meses fora é surpreendido por mudanças.
Um bairro muito bom em uma colina, baptizado de Miramar, abriga as embaixadas e belas casas, mas muitas das ruas não são calçadas. Próximo está o palácio presidencial. A fortaleza colonial construída pelos portugueses domina majestática a baía de Luanda. Ali está o museu das forças armadas. O porto é um destaque. Cheio de navios, ilustra o intenso comércio.
A actividade mais frenética é em Luanda Sul, uma outra cidade que está a nascer a aproximadamente 20 km do centro. A Construtora Norberto Odebrecht, a maior das que estão presentes no País, está construindo ali vários condomínios, de casas e de prédios.
Um apartamento triplex de quatro quartos, com cobertura e piscina, sai por US$ 2,2 milhões num desses condomínios. A demanda é grande. O aluguel de uma casa em Luanda Sul fica em torno de US$ 20 mil, podendo chegar a US$ 28 mil. Lá fica a mais nova atração luandense, o shopping Belas, inaugurado este ano e administrado por uma empresa baiana.Além de poucos ricos, a elevação dos custos em Angola é patrocinada pela presença crescente de empresas estrangeiras, atraídas pelas indústrias do petróleo e do diamante e pela crescente demanda por produtos e serviços num país de 15 milhões de habitantes (número também controverso) com um Produto Interno Bruto (PIB) que este ano deve superar US$ 50 bilhões e onde falta quase tudo. É uma atração irresistível, e as pessoas que chegam acabam aprendendo a conviver com a desordem urbana agravada pelas obras de reconstrução. É bom ver o país a transformar-se, embora analistas, como a directora do Centro de Estudos e Investigação Científica de Angola, Noelma Viegas d’Abreu, comecem a questionar a demora para que o crescimento se traduza em melhoria das condições de vida da população pobre, após cinco anos do final da guerra.

domingo, 17 de agosto de 2008

O mundo é um Grajaú


Você compra uma bermuda nova no Rio de Janeiro e viaja prá África. Vai morar em Angola. Num belo domingo, pé de cacimbo, recebe um convite para o almoço e.... quem está lá? Uma bermuda igualzinha, comprada em Belo Horizonte. Pode? Mundinho pequeno, esse...

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Bwé de kumbú


O azeite Gallo estava barato. Mesmo assim, é preciso bwé de kumbú prá pitar em Luanda. E ainda não consegui comprar os fósforos.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Torre de Babel


Qual a língua falada em Angola?
Bom... depende.
O idioma oficial é o português. Angola faz parte da Comunidade de Países da Língua Portuguesa - CPLP e leva o assunto muito a sério. No aeroporto existe até uma fila exclusiva para facilitar a imigração de viajantes naturais da CPLP.
Mas o país possui dezenas de outras línguas nacionais. Só o mapa linguístico da Wikipédia registra trinta e seis. As mais importantes são o quimbundo, umbundo, quicongo e chocué. A televisão estatal transmite alguns programas nessas línguas e - como faltam apenas 22 dias para as eleições - a propaganda eleitoral também.
Não dá para entender nada, ou quase nada. Algumas palavrinhas no meio da frase, como "Angola", "coligação" e só.
O português-angolês também precisa de alguma iniciação. Temos um colega especialista em frases ininteligíveis em português-angolês. Uma de suas pérolas: É preciso bwé de kumbú prá pitar em Luanda. E é a mais pura verdade. O blog Casa de Luanda organizou um dicionário bem útil, se alguém quiser se dar ao trabalho de traduzir.
Existem outras frases do cotidiano igualmente incompreensíveis, mas formuladas com palavras que aprendemos antes dos 5 anos de idade: "Tive que deitar o gelado da marmita da geleira". Minha empregada volta e meia sai com uma dessas.
Nesse ambiente lingüístico, só quem consegue revidar à altura é o pessoal da informática, capaz de disparar coisas como "abendou o dump do back-up". Um dos membros de nossa equipe, da área de informática, foi solenemente batizado, por uma angolana da gema, de Doutor Babel. Não acho que tenha sido por vingança, nem provocação. E nem coincidência.

sábado, 9 de agosto de 2008

Kissama - 2

Comentei com colegas de trabalho sobre o cocô de elefante. Na verdade, sobre a minha decepção. Resposta: "Você tem que ir de manhã bem cedinho, se quiser ver os animais".
Oquei. A primeira turma sai às 6 horas da manhã. A segunda, às nove. Quer dizer: tenho mesmo que dormir por lá. Não entrei nos chalés, mas muitos estavam habitados. Já estou pensando em me oferecer uma segunda chance.


Chalés do parque. É prudente fazer reserva, e chegar antes das 18 horas.


Tem um motorista e um guia.


E o jipão. Vinte dólares per capita.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Olimpíadas. Pronto!

Pronto. Os jogos olímpicos começam hoje. Pronto. E o presidente José Eduardo dos Santos viajou à China, com a primeira dama, para assistir à cerimônia de abertura. Pronto. E o Lula, presidente do Brasil, também foi, e deve ter levado a primeira dama. Pronto. Talvez os dois se encontrem por lá, em algum momento. Pronto. Certamente hoje mesmo, durante o almoço que o homólogo chinês Hu Jintao oferece às personalidades que estão por lá. Pronto.

O Jornal de Angola informa que o desfile das delegações será feito de acordo com o número de traços necessários para escrever o nome do país em chinês, em ordem ascendente. A Guiné Konacri, que em chinês se escreve com apenas dois traços, entrará no Estádio Nacional logo atrás da Grécia, que tradicionalmente abre o desfile. A delegação angolana será a 88ª a apresentar-se.

Pronto.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Parque da Kissama

Na semana passada não deu certo. Sábado, com tudo organizado, partimos às 8 da manhã para um passeio no Parque Nacional da Kissama.

Meu primeiro safári fotográfico
na África!

Foi difícil sair da cidade. Trânsito muito lento e congestionado até o Benfica. Milhares de militantes do MPLA a caminho do “comício de encerramento da pré-campanha eleitoral” (!!!). Foi uma grande festa, mas hoje o assunto é outro.





No caminho, demos uma parada no Miradouro da Lua. Uma vista linda, lembra um pouco o mirante geodésico da Chapada dos Guimarães.





Logo depois chegamos às margens do Rio Kwanza, o maior rio do País, com cerca de 1000 km de extensão. Nesse rio foi construída a hidrelétrica de Capanda, pela Odebrecht, com financiamento bilionário concedido pelo Governo Brasileiro.








Depois da ponte, numa entrada à esquerda, fica a primeira guarita de acesso ao parque. Tivemos que preencher um formulário: nome do motorista, marca do carro, número da matrícula (placa), horário. Trinta quilômetros depois, a segunda guarita. Outro formulário e 900 kwanzas de ingresso para 4 pessoas.
Entre as duas guaritas, uma estrada bem ruim. Só passam carros com tração nas quatro rodas.
No caminho, inúmeros e lindos imbondeiros.






O parque fica a uns 75 km ao sul de Luanda. Tem chalés para hospedagem e um bom restaurante. Andou meio derrubado, os animais sumiram ou morreram, mas está sendo repovoado. Hoje abriga elefantes, girafas, zebras, etc. Pelo menos é o que dizem. Depois de duas horas sacudindo num jipão, vi veados e macacos. E cocô de elefante, recolhido pelo motorista para fazer um chá medicinal! Chá de podela. Isso existe!








Destaques zoológicos do dia.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Lei Seca

Bobagem do dia:
Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.
Cana dá álcool. Álcool dá cana.

Na estica


Sexta-feira é dia de caprichar na indumentária.

Carona prá casa

A candonga não passou, ou passou lotada. Ele resolveu pegar uma carona no caminhão.


A idéia foi aprovada rapidamente.