quinta-feira, 31 de julho de 2008
Quando setembro vier
No próximo dia 5 de setembro Angola vai às urnas. Eleições legislativas, voto partidário, lista fechada de candidatos. A conquista da paz é mote de campanha. As feridas da guerra ainda sangram.
terça-feira, 29 de julho de 2008
Os frescos
Ontem, ao sair de casa, a empregada avisou: "acabaram-se os frescos".
Ôpa! Tínhamos frescos em casa e eu nem sabia? Tive que perguntar, e aprendi. Frescos são carnes, de qualquer tipo. Inclusive congeladas.
Além dos frescos, precisava também comprar pão, guardanapos de papel, fósforos e água mineral.
Decidi dar uma passadinha no supermercado, depois do trabalho. Fui ao Intermarket. Fica no caminho, o que aqui em Luanda é uma vantagem e tanto. Trânsito da hora do rush, fim de tarde, sabem como é. Quer dizer... acho que não sabem não.
Enfim, consegui chegar antes que fechasse. No balcão do açougue, quase nada. Dois quilos de vazio (contra-filé), um quilo de rabadilha para estufados (patinho, acho), e era só o que tinha. Foram pro carrinho. No freezer dos congelados achei um pedaço de lombinho, um pacote de peito de frango, carne moída e um pote de sorvete italiano. O pão de forma estava meio velho, mas em compensação comprei duas bisnagas de pão francês estalando de crocante, como há muito tempo não via. Umas cenouras, umas peras, canela em pó, papel alumínio e pronto. Fósforos, não tinha. Nem isqueiros, que são os acendedores automáticos de fogão. Me esqueci completamente dos guardanapos e da água mineral. Nem procurei.
Gastei 8.000 kwanzas. Em reais, uns R$ 173,00. Mas podia ser pior. Já pensou se tivessem fósforos?
sábado, 26 de julho de 2008
Um mês

Trinta dias, hoje. Já posso fazer um balanço. Considerando os prós e os "contra-prós", o resultado é positivo. Vamos ver:
Do lado positivo: estou bem instalada. Para os atuais padrões angolanos da classe média, estou muitíssimo bem instalada. O prédio é novo, o apartamento relativamente bem montado, três quartos. Divido com dois colegas que vieram junto, no mesmo projeto de trabalho. Temos DUAS empregadas, uma cozinheira e uma arrumadeira. E um carro à nossa disposição, um Tucson azul, câmbio automático, praticamente novo, com motorista. Nunca tive tantas pessoas a meu serviço, numa avaliação per capita. Moro a três quilômetros do trabalho, e posso almoçar em casa todo dia. [Considero isso um luxo em escala mundial.]
Do lado negativo: Morar com os colegas de trabalho pode ser problemático. Às vezes é difícil deixar as divergências profissionais do lado de fora da porta. Os empregados não são nenhuma Brastemp, o trânsito é pesado e o trajeto entre a casa e o trabalho pode demorar de treze minutos até uma hora e quinze.
Do lado positivo: A ajuda de custo que recebo é suficiente para pagar as contas do supermercado e alguns extras. As compras da casa são divididas, ninguém reclama da despesa nem discute a marca do café ou o preço do sabão em pó. [Ou das Cucas.]
Do lado negativo: Não se acha tudo o que se quer ou se precisa comprar. Algumas coisas são caríssimas, como um cacho de bananas (ou um maço de coentro) por R$ 10,00 , e um abacaxi por R$ 8,00. Um potinho tipo tuperware pode custar US$ 10,00. Uma sessão de compras de supermercado pode exigir a ida a três estabelecimentos, e ainda ficar faltando alguma coisa. Produtos diet/light são raríssimos.
Do lado positivo: Tenho conhecido muita gente interessante. Boas conversas, momentos agradáveis, engraçados, enriquecedores, muito legal.
Do lado negativo: Saudade dos amigos. Dos ombros e dos colos, do aconchego, dos afetos compartilhados. Não tem internet ou skype que se compare, nem com garantia de bom funcionamento [o que não é o caso por aqui]. Quanto tempo demora para um novo conhecido interessante ser promovido à condição (top de linha) de amigo?
Do lado mais negativo ainda: Restrição de movimentos. Não dá prá ir aonde se quer, quando se quer. O "como ir" tem sido um problema para mim. Aqui não tem taxi, pelo menos no conceito que costumamos emprestar à palavra. Preciso recuperar minha autonomia, andar na cidade sem depender dos outros. Preciso aprender a me localizar e vencer o bloqueio de dirigir um trambolhão, num trânsito insano.
Do lado positivo: A oportunidade de vencer o bloqueio de dirigir um trambolhão num trânsito insano. A oportunidade de superar limitações. De viver e experimentar coisas novas. De mudar, de me reafirmar, de me reconstruir. Ou não.
Shopping

domingo, 20 de julho de 2008
Tempo de borboletear

Agora há pouco me chamaram a atenção para uma coisa: a cidade está cheia de borboletas. Da varanda do meu apartamento, para qualquer lugar que olhe, lá estão elas. Muitas. Milhares.
Borboletas são símbolos de mudança, de renovação, de transcendência. Inspiram metáforas e introspecções. Mas vão inspirar também muitas gozações e sacanagens dos colegas caso eu prossiga no assunto.
Por isso paro por aqui. Mas de pura provocação deixo uns versos do Fernando Pessoa, no heterônimo de Alberto Caeiro:
Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no universo eu reparo
que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta.
No movimento da borboleta, o movimento é que se move.
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta.
E a flor é apenas flor.
sábado, 19 de julho de 2008
Arte Africana
Trabalho de homem
Eu não sei se é verdade verdadeira, mas já vi vários garotos como este andando pela rua. Carregam esmaltes de unha de todas as cores, lixas, tesourinhas e demais petrechos para uma boa manicure. Estão sempre em movimento, consta que o ofício é reprimido pela polícia. Mas ainda não vi ninguém fazendo as unhas, e nem parei para perguntar.
Banco Nacional de Angola
Esta é a fachada principal do Banco Nacional de Angola.
O saguão principal
São três andares.
Pode-se subir por esta escada.
Detalhe da escada.
Esta é a imagem da cúpula, vista por dentro.
Ainda existem peças de mobiliário antigo, como este banco de madeira entalhada.
Dos tempos coloniais.
A herança portuguesa está presente também nos azulejos pintados à mão que revestem as paredes internas.
Quem não se comunica...
quarta-feira, 9 de julho de 2008
sábado, 5 de julho de 2008
Por-do-sol
quinta-feira, 3 de julho de 2008
terça-feira, 1 de julho de 2008
A saideira
Nada feito. Mil pedidos de desculpa, planos alterados, aproveitamos para ir ao supermercado abastecer a dispensa. Fomos ao Jumbo, com direito a elefantinho e trevo de quatro folhas. Quanto saudosismo... Tinha até corrida de camundongos no corredor, por baixo das prateleiras. Juro. Como nos velhos tempos do dito cujo.
Entre o macarrão e o coador de café, toca o celular: “Vocês estão perdendo o por-do-sol, regado a Cuca gelada”. Convite irrecusável.
Corremos para o caixa, chegando a tempo de presenciar nossa primeira discussão angolana.
[parênteses: uns quinze minutos de bate-boca porque um freguês havia entrado pelo espaço entre dois caixas, o que denotaria “mal comportamento”. Do lado do freguês, indignação por alegada falta de isonomia, já que outras pessoas teriam passado pelo mesmo lugar sem sofrer qualquer repreensão.]Perdemos o por-do-sol, mas não a cerveja gelada. Na ilha de Luanda, nosso primeiro boteco. Muitos homens. De mulher, só as garçonetes e eu. Ou quase isso.
Confraternização com os amigos, um brinde, um tira-gosto, uma piada. Hora de ir embora. Éramos cinco, trouxeram quatro chopes. O veterano provoca um dos estreantes: “- Trouxeram a saideira prá todo mundo, menos prá você. Não vai reclamar?”
Ele reclamou. Chamou a garçonete: “- Puxa, você deu uma saideira prá todo mundo, e eu? Também quero.“
A moça chegou a empalidecer. “- Isso não. Isso eu não posso.”
Ninguém entendeu. Ele insistiu. A moça foi embora, séria, chamou o gerente.
O gerente veio. Ouviu, riu e explicou. Saideira por aqui é sexo oral.
Na hora ela não achou graça nenhuma. E nada de saideira.













